sábado, 15 de novembro de 2008

É isso, então?


Sábado, 6h00. Começo o dia com um pensamento que me ocorre uma vez por semana, ou mais, de acordo com o senso de humor e o nível de estress do período.
"Será que é isso mesmo o que eu quero da vida?".
Entre uma tarefa e outra, construo mentalmente como se adequariam a mim as tantas outras milhões de possibilidades profissionais. Reforço algumas poucas certezas. Definitivamente, quero lidar com gente. Não sei me descrever, mais sei que sou avessa aos números, às exatidões e a tudo que se repete cotidianamente, previsivelmente, sem nenhuma gota de frescor, de novidade.

Movimento, gente, novidade, ação! Quero isso e muito mais.

Por enquanto o jornalismo me serve. Afinal, de que outra forma conheceria tantas pessoas, tantas teorias, tantas histórias, e tantos exemplos do que eu não quero, em pleno horário de serviço e sem estar sendo negligente?

Tá. Entedia, às vezes. Mas, vez ou outra, o imprevisto surge desafiando a chata da apatia e, em minutos, traz à tona aquele gosto indescritível. Aquele gosto por estar ali, documentando, relatando, informando a coisa toda. E por alguns milésimos de segundos tudo faz sentido e as dúvidas se esvaem......
Depois ressurgem, mais complexas e latentes que antes....
***
Encontrei esse vídeo num blog, não por acaso, de fotografia.
É o discurso de um cara importante, um alguém que deu certo porque seguiu suas intuições.
Embora use alguns clichês, ele suscita essa questão das escolhas, do destino e da vida.
Quando passou por sua pior fase, profissionalmente, amargou uma demissão e sentiu-se traido.
Com o tempo livre, passou a inventar e criou o que, anos depois, virou um grande patrimônio. Quando ainda na fase ruim, conheceu sua esposa e com ela, na época jovem, partilhou as dificuldades e vitórias. Poderoso, Steve Jobs diz que seguir a intuição foi o maior acerto de sua vida. Foi ela quem tratou de "ligar os pontos" para que ele chegasse até esse futuro promissor.

Vale a pena ver, ele trata também de outros aspectos que transcedem o profissonal:

Continuo nessa estrada, entre dúvidas e notícias.
Veremos o que "os pontos" reservam.
Não tenho pressa.








quarta-feira, 29 de outubro de 2008

"Era só um dia tranqüilo..."





É tão belo quando tudo faz sentido...
ainda que efêmero, ainda que se vá....

O açogueiro que virou notícia.

O acidente que envolveu o carro e uma van escolar. [Nenhuma criança ferida].

O "caçador de abelhas" que resolveu tirar a família ameaçada do caos.


Há dias em que, definitivamente, vale a pena ser [e querer ser] jornalista.

Nem que seja para retratar o homem comum que mais agrada clientela.
Nem que seja para aprender sobre as abelhas rainha.
Nem que seja para fotografar o milagre do dia.

É aí que se descobre ....

O fato:

Homem é encontrado morto com quatro tiros

O corpo de um homem ainda não identificado foi encontrado por volta das 14h00 de ontem em matagal existente na Estrada dos Índios, bairro do São Bento. A Polícia foi acionada por alguns moradores e quando chegou ao local percebeu que nada poderia ser feito pela vítima.


O rapaz branco, aparentava 30 anos de idade, tinha cerca de 1.70 de altura e possivelmente 70 quilos. O que chamou a atenção dos policiais foram várias tatuagens espalhadas pelo corpo, como teia de aranha, aranha, tribal, coração pontilhado, mulher anja e o desenho de um mago, entre outras.

O cadáver estava caído com três perfurações no lado esquerdo do abdome, um no peito e um no queixo. À princípio não se sabe se a vítima foi morta no local ou apenas desovada ali.


Depois o inusitado:


- Você divulgou o encontro de um cadáver hoje de manhã?

- Sim. Por quê?

- Ligaram avisando que há alguém desaparecido aqui em Mogi. Essa pessoa tem as mesmas características que você descreveu na participação do Radar.

- Como eu entro em contato?

- Deixaram esse número.......


É aí que você descobre em que situações o informar faz sentido.
É aí que você descobre porque escolheu essa profissão.



E por fim a poesia:

Cidadão De Papelão


O cara que catava papelão pediu
Um pingado quente, em maus lençóis, nem voz
Nem terno, nem tampouco ternura

À margem de toda rua, sem identificação, sei não
Um homem de pedra, de pó, de pé no chão
De pé na cova, sem vocação, sem convicção

À margem de toda candura
À margem de toda candura
Cria a dor, cria e atura
Cria a dor, cria e atura
Um cara, um papo, um sopapo, um papelão

O cara que catava papelão pediu
Um pingado quente, em maus lençóis, à sós
Nem farda, sem tampouco fartura
Sem papel, sem assinatura
Se reciclando vai, se vai

À margem de toda candura
À margem de toda candura
Não habita, se habitua
Não habita, se habitua
Homem de pedra, de pó, de pé no chão


[O Teatro Mágico]

Resistência silenciosa [ou não]

Manipulam-se imagens, textos, fatos e dados. Nenhuma mídia está livre da distorção, da tendência partidária e da luta por seus interesses econômicos. Já não é novidade a desconfiança que se deve ter com o que é apresentado em noticiários de TV e rádio, jornais e internet. Ainda assim, é notória a grande influência que o meio provoca à percepção da sociedade, especialmente nas camadas mais excluídas, as quais têm menos opções informativas e, conseqüentemente, menor senso crítico.

Influenciar é errado? É errado buscar condições financeiras para viabilizar o veículo? É errado apresentar na mídia um ponto de vista noticioso diferente do senso comum? Não. Errado é o jornalista gabaritar-se de formador, quando na prática ele muitas vezes exerce o papel de DEformador de opinião. Errado é dizer-se imparcial quando sabemos que a opinião do veículo é expressa desde a escolha da pauta. Errado é declarar-se neutro, ciente de que em toda a matéria a seleção de dados e a estrutura textual estão intimamente ligadas à visão e repertório pessoal do jornalista.

Ora, a imprensa é – no fundo todos sabem – uma empresa, como outra qualquer. Sua matéria-prima é a informação e é através dela que se torna possível a sustentabilidade do meio. Afinal de contas [e que contas], como se manteria uma redação, a circulação das notícias e a estrutura do veículo não fosse a publicidade - seja essa em forma de anúncios ou matérias? Jornais, revistas, programas de rádio e tv precisam sobreviver e a lei de mercado nem sempre é favorável a mídia. Considerando-se isso, são compreensíveis as estratégias com fins lucrativos.

Dar visibilidade àquilo que tem importância razoável; enaltecer os bons resultados e omitir as falhas de empresas e personagens em matérias; noticiar assuntos e acontecimentos de objetivo publicitário e não jornalístico. Tudo isso e várias outras artimanhas - nada que ofenda diretamente a integridade moral dos veículos - são formas estabelecer uma relação amigável e estável com anunciantes e patrocinadores. O que incomoda e preocupa é outro tipo de propaganda, aquela que é feita incoerentemente por jornalistas.

Nesse tipo de publicidade é que acontece o embate ético da profissão. São as denúncias que não por acaso desfavorecem pessoal tal. Os elogios “da população” à autoridade x [que mantém contrato com o veículo]. Comentários telejornalísticos com pouca sustentação informativa e muita palpitação. Quantas vezes jornalistas são induzidos a contar a história de outra maneira? E pior, quantas vezes são complacentes com os pedidos mais ordinários dos chefes de redação? Assim como o veículo, o jornalista precisa sobreviver e a negativa a um pedido de esfera superior não raramente significa sua demissão.

E o que se pode fazer? Dizer não e perder o emprego? Priorizar a lei de mercado e esquecer os princípios éticos? Nada disso. A palavra chave é: resistência. Ao escrever as matérias “encomendadas”, não esquecer-se que sempre existem dois lados, ainda que sua empresa só queira saber de um. Ao ser induzido a comentar determinado assunto [em rádios], usar dados e fatos concretos para sua argumentação e não meramente a opinião exigida. Alertar seu público sobre o que é importante e não pôde ser divulgado. Mostrar um pouco mais dos bastidores...

Apesar de toda a pressão e da rotina absurdamente puxada, é preciso sempre lembrar que o jornalismo pode e deve ser um mobilizador social. Mas para isso, é necessário ganhar espaço e resistir. Resistir ao medo de ser substituído por alguém mais flexível, resistir aos pedidos tendenciosos, resistir o quanto se pode ao monstro da manipulação. Sempre tem alguém disposto a fazer o jogo sujo e, no fim, quem compra gato por lebre é o ouvinte, o telespectador, o leitor, o internauta, o João e a Maria. Por isso, lute para preservar seu lugar. Conquiste espaço e seja aquela pedra no sapato de quem quer matéria fácil. Mostre que ainda é possível aliar informação de qualidade e interesse público – e isso, é claro, sem que seu chefe perceba.

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"Eu acho que tenho certeza daquilo que eu quero agora
Daquilo que mando embora
Daquilo que me demora
Eu acho que tenho certeza daquilo que me conforma
Daquilo que quero entender
E não acomodar com o que incomoda
Não ME acomodar com o que incomoda"

domingo, 20 de julho de 2008

Enquête popular

Entrevistar pessoas anônimas, assim como autoridades, dá trabalho. Primeiro porque a abordagem inicial é sempre difícil. Muitas pessoas ficam intimidades com o gravador, ou dão a entrevista, mas não aceitam tirar foto. Pior ainda é quando não estão informadas a respeito do assunto sobre o qual são questionadas. É uma tarefa difícil, mas prazerosa. Não raras vezes, o povo, com toda sua simplicidade, mostra que a sabedoria popular ainda é tão salutar quanto o conhecimento de especialistas.

Enquête popular é sempre um desafio e, ao final, percebo que grandes transtornos geram grandes aprendizados. O último deles foi que jornalistas mulheres nem sempre podem ir às ruas sozinhas. Ter uma segunda pessoa auxiliando é necessário, de acordo com o tema da pauta. Entrevistar homens em bares, sobre a Lei Seca, por exemplo, é coisa que não se deve fazer sozinha. Ter ousadia é preciso, contudo, segurança é ainda mais fundamental. O que alivia é o resultado final: ninguém sabe os apuros que você passou para conseguir a matéria, mas, quando ela finalmente dá certo, o reconhecimento coroa o esforço.

Resultado da última enquête:

Lei Seca tem alto índice de
aprovação entre arujaenses

Legenda: Márcio Sampaio, da Chopperia Sem Parar: houve uma queda de 20% no movimento dos últimos finais de semana

Sancionada há pouco menos de um mês pelo presidente Luis Inácio Lula da Silva, a Lei Seca já surtiu efeitos significativos na cidade de São Paulo. Embora o município de Arujá não tenha recebido ainda o bafômetro (aparelho utilizado para medir o teor alcoólico) do Governo do Estado, os resultados noticiados pela grande imprensa parecem ter repercutido na opinião de muitos arujaenses que, em pesquisa realizada essa semana pelo Jornal, mostraram-se favoráveis à nova lei.

A maioria dos entrevistados aprova a medida e sustenta sua opinião com base na redução de 57% no número de mortes por acidentes de trânsito na Capital, dado que foi oficialmente divulgado pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo. Em contraponto, a rigidez da Lei Seca e a queda de movimento em bares e similares foram as principais justificativas apresentadas por aqueles que disseram-se, ideologicamente, contra a nova regra.

A diminuição na venda de bebidas alcoólicas afeta não somente os estabelecimentos de São Paulo, onde os comerciantes começam a criar estratégias para manter sua clientela. Segundo Márcio Sampaio, gerente da popular chopperia Sem Parar, uma queda de 20% foi registrada no movimento dos últimos finais de semana no local. Para ele, a Lei Seca e o tempo frio são os fatores responsáveis por essa nova estatística.

“Como gerente, sinto que os bares e comércios que vendem bebida alcoólica estão sendo bastante prejudicados. A lei está bem rígida e ninguém quer brincar e correr o risco de ser multado. O cliente que vem e gosta de tomar bebida alcoólica não fica mais o tempo que ele ficaria normalmente, ou seja, mesmo que ele substitua a cerveja por um suco, o consumo diminui”, explica Márcio, que há um ano trabalha na chopperia.

Questionado sobre sua opinião em relação à proposta da Lei Seca, o gerente mostrou-se dividido. “Com a visão de quem sobrevive da venda de bebidas, posso dizer que a medida deveria ser mais tolerante porque ela está severa demais e irá prejudicar o comércio. Mas, como cidadão, acho que é preciso prevenir acidentes. Andar com mais tranqüilidade no trânsito é uma melhoria importante”, ponderou.

Com 25 anos de atuação no município, o mecânico ‘Zezinho’ já foi responsável pelo conserto de inúmeros carros provenientes de acidentes de trânsito ocasionados por motoristas embriagados. Ainda que o rigor da nova lei diminua o número de automóveis a serem consertados em sua mecânica, ele diz que as ruas tendem a ficar mais seguras e, por isso, é favorável à medida. “Tem que existir essa regra mais severa. Com certeza eu vou ter menos trabalho, mas a segurança vai aumentar”, enfatizou.

Cristiano Carbonari mora em Arujá e trabalha em Guarulhos. Ele acredita que todo trabalhador tem o direito de, ao final do dia, tomar pelo menos uma taça de vinho ou uma dose de vodka para relaxar, contanto que não perturbe ninguém. Cristiano não é favorável à Lei Seca, mas se diz contra as pessoas que dirigem embriagadas.

“Eu sou contra o cara que fica bêbado e vai embora dirigindo. A lei diminuí o número de acidentes porque intimida as pessoas. Você a proíbe, não a convence de que é errado. É mais eficaz pensar em uma forma de educar para que ela beba menos e dirija com cuidado”, argumentou, enquanto tomava o aperitivo pós fim de expediente. “Eu bebo, mas moro ao lado. Não preciso de carro para chegar em casa”, justificou Cristiano.

De outro lado, o ‘velho de guerra’ Estelito, conhecido produtor de eventos, acompanha com alivio os resultados da nova medida. Ele relata que, há algum tempo, também passou da conta e viu de perto o perigo que o excesso de álcool pode causar quando começa a afetar os sentidos das pessoas.

“Já morreu muita gente no caminho de Arujá para Mogi das Cruzes por causa da bebida. Então a regra vai dar uma boa regulada nesse aspecto. Antes a lei seca controlando a ingestão de bebidas, do que outra lei proibindo o comércio de vender seus produtos. Agora é assim, bebeu, tem que assumir a responsabilidade”, salientou. Com ares de inconseqüente assumido, o produtor completa “o pessoal está bebendo muito. Eu, inclusive, me policiei um pouco mais”, concluiu.

Box
Saiba mais sobre a Lei Seca

A lei seca foi sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no dia 19 de junho com o intuito de agir com maior rigor contra o motorista que ingerir bebidas alcoólicas. O texto da lei, aprovado pela Câmara no início de junho, passa a considerar crime conduzir veículos com qualquer teor de álcool no organismo.

A punição para quem não cumprir a lei será considerada gravíssima e prevê suspensão da carteira de habilitação por um ano, além de multa de R$ 955 e retenção do veículo.

A suspensão por um ano do direito de dirigir é feita a partir de 0,1 mg de álcool por litro de ar expelido no exame do bafômetro (ou 2 dg de álcool por litro de sangue). Acima de 0,3 mg de álcool no ar expelido (ou 6 dg por litro de sangue), a punição inclui também a detenção do motorista (de seis meses a três anos).

Com a nova lei, o homicídio praticado por motorista deixa de ser culposo e passa a ser doloso (com intenção). A lei retira do Código de Trânsito Brasileiro o agravante para a pena de homicídio culposo (sem intenção de matar) por entender que dirigir sob efeito do álcool é crime.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Suicídas e Devaneios...

A notícia:

Mulher tenta suicídio
no *Parque Novo Mundo


A dona de casa R.C.A., 26 anos de idade, foi encontrada por familiares descordada e com os pulsos cortados dentro de sua casa, localizada na Rua 83, no Parque Novo Mundo.
Segundo o irmão da vítima, ele a encontrou caída ao solo com os pulsos feridos e vários medicamentos ao seu redor. Ele pediu a ajuda de policiais que realizam patrulhamento nas proximidades e a equipe encaminhou R.C.A. ao Pronto Atendimento. Lá, ela recusou-se a receber auxílio médico e foi liberada.
O boletim de ocorrência foi registrado como tentativa de suicídio.


O devaneio:

Coragem ou fraqueza?

A palavra suicídio parece estar sempre ligada a uma pergunta: por quê?
Problemas psicológicos; miséria; traição; desespero; solidão; dívidas; gravidez indesejada; decepção amorosa; conflitos familiares.
Qual dos motivos sustenta a tentativa de romper com a própria vida?
Enquanto tantos lutam contra enfermidades para continuarem vivos, é estranho falar sobre alguém que viu na morte uma saída.

Nunca tenho uma opinião formada sobre os suicidas.
A verdade é que, em alguns casos, vejo nessas situações um ato de coragem. Já em outras, pré-julgo os protagonistas como fracassados.
Obviamente, não acho que tirar a própria vida seja uma solução e jamais aconselharia alguém a fazer algo do tipo.
Mas, acredito que, quando uma pessoa chega a pensar nesse extremo, ela já eliminou integralmente todas as suas perspectivas para uma vida melhor.
Talvez por falta de conhecimento ou, quem sabe, por excesso dele.

Prefiro imaginar que os suicidas são homens e mulheres inconformados que simplesmente decidiram romper com uma sociedade na qual não se encaixam. Decidiram romper com o mundo podre que não suportavam mais ver. Romper com o sistema sujo e desumano que dita as regras e vitima, das mais diferentes formas possíveis, milhares de pessoas. É grande o peso de todo o ser humano ciente dessa realidade lamentável. O peso é maior ainda quando a sensação de impotência confronta a fé.

O desejo de partir para o tal “mundo melhor” e finalmente “descansar em paz” também pode ter motivado essas pessoas. Mas o que realmente me impressiona nisso tudo é a vontade desenfreada de abrir mão da vida em sociedade e a coragem de dar um rumo ao seu destino, sem ter certeza sobre o que, de fato, acontecerá. Deixar tudo e todos. E mostrar que nada disso tem valor, é só apego às pessoas e a um mundo material.

Por outro lado, aqueles que cometem suicídio por motivos menos ‘complexos’- como os que se matam por perder o emprego ou por serem traídos- deixam a impressão de que foram fracos. Fracassaram em suportar uma dor sentida por tanta gente e tão comum ao ser humano. Parece mesmo que a desistência foi por ignorância, falta de firmeza e descrença. Afinal, se o mundo todo sobrevive com esses problemas, por que essa minoria se julgar incapaz de continuar? É uma pergunta que ficará sem resposta. Só pode responder quem, por decisão própria, já não vive mais entre nós.

*As idéias apresentadas nesse texto são apenas devaneios de quem lida com notícias do gênero. Não nos cabe julgar quem se mata; e nem quem continua vivendo, ainda que sem vida.

A trilha sonora:

O que será – Chico Buarque

O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita

O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os ungüentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite

O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Pautas e autoridades



“Bom dia

Hoje o senador Mercante visitará a região.
Você deverá questioná-lo, primordialmente, sobre o assunto ‘x’

Obs.: Será a matéria de destaque amanhã


Att: chefe de redação”


Autoridades de reconhecimento nacional costumam ser pouco acessíveis. Andam rodeadas por uma multidão; estão sempre com muita pressa: se dizem atrasadas para um próximo compromisso. Além disso, mostram que estão ‘na defensiva’ quando abordados pela imprensa e, às vezes, chegam a responder grosseiramente perguntas consideradas desagradáveis.

Entre povo, personalidades e assessores, jornalistas arranjam espaço e tentam cumprir seu trabalho, ainda que para isso precisem ser pisoteados e, em casos extremos, até destratados por tietes e seguranças.


Mesmo lembrando os traumas com personalidades desse tipo, o e-mail acima - enviado pelo chefe de redação - não causou a ansiedade e o medo que normalmente surgem com pautas difíceis. Talvez, inconscientemente, eu tenha imaginado que entrevistar o senador não seria tão ruim quanto o governador de São Paulo, José Serra.

Em visita à região, o governador deixou com respostas medíocres até os jornalistas mais experientes (imagine os pobres estagiários). Quando finalmente consegui me aproximar dele, fui repreendida pela assessora de imprensa: “ele já está atrasado. Não há tempo para mais perguntas”. Isso seria suficiente para me fazer desistir, caso não estivesse sob minha responsabilidade a matéria para dois veículos de comunicação.

Todos começaram a se movimentar acompanhando o passo de Serra, que já havia virado as costas para caminhar em direção ao seu helicóptero. Numa atitude impulsiva e ousada, puxei levemente a gola do governador (estava atrás dele). Com o coração disparado, aproveitei o olhar curioso que ele lançou em minha direção e pedi: só UMA pergunta, por favor. Todos os flashes e gravadores a postos novamente. Trêmula e bastante intimidada, finalmente fiz a pergunta que tanto me atormentava. Era sobre segurança pública.

-Quê? Hum....Bom, não sei. É melhor perguntar isso ao Marzagão [secretário de segurança].
Depois da brilhante resposta, virou-se e foi embora. Eu fiquei. Fiquei vermelha, desnorteada e me sentindo um lixo como profissional. Recebi todos os olhares de solidariedade dos colegas que perceberam o esforço e minha insatisfação diante da indiferença demonstrada por Serra. Apesar daquilo que, a meu ver, foi um constrangimento, consegui a sonora, fiz as matérias.......... Missão cumprida, apesar dos pesares.

E o Mercadante? Felizmente, minha intuição estava certa. Também não foi fácil a busca por mais uma ‘exclusiva’ - coletivas não têm graça e, além disso, a sonora não fica com a mesma qualidade. Por coincidência, foi quase a mesma metodologia descrita nas linhas anteriores. Após muita conversa com os militantes do PT, autoridades, simpatizantes e curiosos, o senador despediu-se e parou para tirar uma última foto com um fã. Enquanto eles se ajeitavam para a pose, fiz mímica e pedi: só UMA pergunta. Mesmo com o alerta de “ele não tem mais tempo” da assessoria, Mercadante mostrou-se receptivo. Foram três perguntas para três respostas bem articuladas. Missão cumprida! E dessa vez, sem passar vergonha e sem‘pesares’ no final ....

Detalhe, quando conversava com militantes petistas, Mercadante deixou o entusiasmo aflorar em suas palavras. Engraçado que uma piada feita por ele me deixou, desnecessariamente, encabulada. “Tucano tem bico grande, mas voa curto e ‘caga’ mole”. Minha cara de desaprovação foi tão notória que o próprio senador viu e emendou: com o perdão da palavra, é claro.