
Os problemas da comunidade local acabam se tornando a pauta mais importante do impresso, porque a população dialoga com as autoridades através do jornal, fazendo dele um salutar instrumento de reivindicação social. Expondo seus problemas na mídia, o povo consegue conquistar a atenção dos órgãos competentes, assim como dos ilustres políticos. Talvez isso, diz Darwin, seja reflexo da dificuldade que as pessoas encontram para conversar com os representantes do poder público. Elas vêem autoridades inacessíveis e logo recorrem aos jornalistas, sempre sedentos por informação.
Diante disso, perguntei a Darwin: - Se ambos, jornalista e comunidade, são beneficiados com a situação, há algum problema nisso?
- Certamente não, diz ele, com uma expressão de quem está refletindo interiormente. Não, desde que o jornalista saiba cumprir com seu papel sem usar de elementos que ferem a ética, como o sensacionalismo, completa Darwin. Fatos cotidianos são sim impactantes, mas a notícia muitas vezes é transformada em espetáculo. Isso empobrece drasticamente a classe profissional e os veículos.
Ele diz ainda que, na maioria dos casos, o cotidiano do jornalista acaba se confundindo com o cotidiano da cidade ou região em que ele trabalha. É difícil dar uma noticia negativa, por exemplo, sem ficar impactado ou constrangido. Darwin diz que na área de cotidiano, em que é preciso lidar com crimes, acidentes, histórias pitorescas e situações comovedoras, o maior desafio do jornalista é justamente o de manter uma postura racional diante de um turbilhão de sentimentos, fatos e possibilidades.
- São tantas coisas, acontecendo ao mesmo tempo, que, às vezes, você se sente no olho do furacão. É uma grande dificuldade chegar em casa e ‘desligar’, ou seja, parar de pensar em tudo que você fez e ainda tem que fazer. Se você vai fundo numa história, acaba fazendo parte dela, compartilhando os mesmos sentimentos dos seus protagonistas, a mesma ansiedade. A razão é a única coisa que te prende ao chão.
Darwin acredita que é possível fazer uma analogia entre o trabalho do jornalista e de um detetive. Para eles, a vida é uma constante mudança. Ambos dormem e acordam com nomes, dados e rostos que, num primeiro momento, parecem estranhos, mas que com o tempo formam um mosaico que pode revelar muitas coisas. Ao jornalista cabe encaixar as peças sem, contudo, interferir no quebra-cabeça.
- O jornalista é o historiador do presente, alguém que busca respostas ontem para informar amanhã. Poucas pessoas conseguem imaginar nossos dias. Eu, por exemplo, posso começar meu dia numa programação cultural no aniversário da cidade e terminar cobrindo algum acidente na Mogi-Dutra. Mas não podemos fugir. Em certos casos todo mundo pode fugir, mas o jornalista tem que ir. Como tem que ir o perito do IML, o padre ou o detetive. Um perícia, o outro consola, aquele investiga e o jornalista publica.
O celular toca e ele, com um olhar de impaciência, diz que precisa ir embora.
2 comentários:
Obrigado por intiresnuyu iformatsiyu
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