terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Jornalismo? Mas, por quê?


“Jornalismo? Mas por que não tenta uma área que dê mais dinheiro ou que pelo menos seja mais importante?”. Cansada de responder quase sempre a mesma pergunta, comecei a ficar com certo receio em falar sobre minha escolha profissional com quem não tivesse um mínimo de clareza a respeito do que é o jornalismo de verdade.

Acostumadas a ver entretenimento televisivo falsamente anunciado como produto de cunho jornalístico, muitas pessoas chegaram a questionar se meu interesse era o de apresentar programas como aqueles que especulam a vida dos artistas.

Não raras vezes, também fui indagada por quem achava que minha pretensão, a exemplo de milhares de estudantes de jornalismo, era a de ser a próxima Fátima Bernardes - com direito a ter o William Bonner do lado, uma equipe à minha disposição o tempo todo, cabelo escovado 30 dias ao mês e aquela maquiagem que esconde até ‘defeitos de nascença’.

E como isso me deixava irritada! “Não. Não quero fazer esse curso por estrelismo, mas por idealismo. Sabe o que significa? Muito provavelmente não tem nem idéia do que isso seja!”. É... as respostas tendiam a ficar cada vez menos elegantes e o meu semblante também. Até que comecei a entender o porquê do conceito de tanta gente estar errado em relação ao jornalismo.

Nos primeiros meses de faculdade a sala de aula tinha um número razoável de alunos. Número esse que foi decaindo ao decorrer do curso. Por quê? Grande parte das desistências aconteceu por desilusão com o que acreditavam ser o jornalismo. Muitos realmente pensavam que bastavam quatro anos de mamata para depois pegarem o diploma e serem contratados pela Globo. Quando os professores começaram a mostrar uma realidade pouco menos glamourosa, a turma foi ficando drasticamente reduzida.

E eu, que não tinha a mínima ambição de minimizar o jornalismo a uma ponte para a TV, achava engraçado o fato de tanta gente estar disposta a fazer o curso sem ter o mínimo gosto pela escrita. Tudo bem que a área é bastante ampla e não se limita a redações onde a matéria-prima é, inevitavelmente, o texto. Mas passar 48 meses aprendendo técnicas de linguagem, tendo aulas de língua-portuguesa e sendo rigidamente avaliados quanto a construção e coerência textual sem nem ao menos gostar de escrever, do meu ponto de vista, parecia suicídio.

As aulas costumavam ser um pouco entediantes no início. Muita teoria, nada de prática. Mesmo sabendo que ainda havia muito o que aprender, a minha falta de desenvoltura e vagarosidade para expressar idéias textualmente chegou a me fazer pensar em desistir do curso. Não achava as palavras, a escrita não acompanhava o raciocínio e não conseguia encontrar com facilidade as respostas para o lead – o trio de ‘nãos’ por diversas vezes causou insônia e desespero.
Cheguei a conversar com uma professora sobre o assunto. Fui sincera e disse que estava em dúvida sobre existir uma vocação ou não para o jornalismo e ressaltei que me sentia incapaz de elaborar um texto digno de leitura.

Honestamente, escolhi justo a professora mais severa e exigente para me aconselhar. Acabei ficando emocionada – chorando um rio de lágrimas alternado com intensos soluços - enquanto falava com ela, que mantinha um olhar compenetrado e analítico em minha direção. Sua voz intimidadora e austera parecia não estar ainda bem direcionada com uma idéia coesa para sair pela boca. Quanto mais eu aprofundava a questão, maior era minha vontade de sair correndo e gritando: “eu desisto!”, já que, até então, nenhuma palavra de otimismo havia confrontado minhas incertezas.

Na verdade, acredito que eu já tinha em mente quais seriam os conselhos da professora. Não que ela fosse alguém previsível – muito pelo contrário- mas, sendo uma educadora, daria um jeito de me incentivar a prosseguir na faculdade, mesmo que em outra área. Depois de eternos 15 minutos, finalmente comecei ouvir a opinião dela sobre o assunto.

Suas palavras, quase sempre objetivas e dotadas de um certo ar de credibilidade, dessa vez me doeram como um pontapé: “não vou dizer que você tem um texto excelente, mas também não posso afirmar que é ruim. Às vezes, a técnica é tão importante quanto a vocação. Persista em aprender a técnica, se não conseguir, procure seu caminho”. Ai! Como eu desejei voltar no tempo... Balancei a cabeça - num sinal de ‘entendo’, agradeci a atenção e saí em uma verdadeira erupção de pensamentos.

Hoje parece engraçado, mas lembro que no dia fiquei muito envergonhada e, mesmo sabendo que estávamos a sós, tive a impressão de que minha ‘crise profissional’ chegaria – indesejavelmente - aos ouvidos de outros professores e quem sabe até colegas de classe.

Curiosamente, o que de início soou como um atestado de que eu devia desistir – já que a meu ver ela foi apenas educada ao dizer que meu texto não era ruim- acabou virando um estímulo para que eu explorasse minha capacidade. Isso devido a minha consciente facilidade em tomar dificuldades como desafios, além da mania de, mentalmente, desvirtuar palavras a meu favor.

Aquele lema de que as conquistas precisam de “1% de inspiração e 99% de transpiração” começou a despertar meu instinto de foca e eu me comprometi – comigo mesma- a pelo menos tentar um estágio ou algum trabalho na área para testar se eu conseguiria ou não dar conta de todos os quesitos aos quais um jornalista deve preencher.

Por falta de um, agora me vejo com dupla responsabilidade. Dois estágios e uma missão: produzir com rapidez, qualidade e em quantidade. Embora eu, quase sempre, ainda me sinta um tanto quanto “crua” entre os tantos profissionais com quem diariamente sou obrigada a conviver, a experiência tem sido bastante proveitosa. E deixando a modéstia um pouco de lado, ninguém contrata estagiário por dó ou assistencialismo. Agora em dezembro faz seis meses que deixei de ver os tão odiados números do setor financeiro para vislumbrar o encantador mundo das palavras, na redação.

Nem todos os dias são maravilhosos e cheios de momentos positivos e agradáveis de noticiar – até porque as notícias trágicas são as de maior repercussão – contudo, perceber como é importante transmitir informações sérias e relevantes, que verdadeiramente interferem na vida das pessoas, recompensa toda a correria. Correria essa que transforma cada dia em uma maratona, mas traduz o sentimento maior que é estar em meio turbilhão de acontecimentos retratando tudo aquilo que o público precisa saber.

Podemos - e devemos - aprender na faculdade as mais inovadoras e dinâmicas técnicas de lead, estrutura e finalização de texto. Absorver todo o conhecimento e buscar todas as formas de aprendizado possíveis. Ainda assim, o reconhecimento do jornalismo como instrumento fundamental de reivindicação popular e social – mesmo com todas as distorções do meio - é algo que em lugar nenhum se ensina. Levo comigo que ser jornalista é, acima de tudo, ser humano e não permitir que o dia-a-dia mude isso.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

“Literalismo jornalístico”


Donde surgiu mesmo essa idéia de escrever detalhadamente, e com mais emoção, sem muito se preocupar com aquelas benditas perguntinhas do lead jornalístico? Do jornalismo literário! Essa miscelânea entre texto jornalístico e literário, pelo que vejo, é muito apreciada pelos universitários de comunicação social que, após os primeiros anos de faculdade, quando o lead nos é apresentado como um verdadeiro herói, descobrem e vêem com otimismo essa nova possibilidade de criação textual capaz de comportar o potencial criativo normalmente reprimido pela objetividade.

A aceitação do jornalismo literário vem se mostrando tão intensa que a revista da Intercom (Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação) realizou uma pesquisa entre leitores para documentar o fato. Para tanto, a mesma notícia foi exibida de quatro diferentes formas. Questionados sobre qual daqueles textos eles mais gostaram, os leitores elegeram o Jornalismo Literário como o melhor e, por último, o lead.

Jornalistas-escritores como Gay Talese, Norman Mailer, Truman Capote, Marcos Faerman, José Hamilton Ribeiro e Roberto Freire são freqüentemente analisados e comentados durante as aulas desse estilo. Uma pena que eu não tenha comparecido em todas as aulas para ser mais ‘entendida’ sobre o assunto! Poxa... estágio e hora certa de expediente estão sempre em contradição. Que culpa tenho eu se a faculdade pede estágio e o estágio pede produção?! Tá certo, confesso que essa operária da informação ainda é um tanto quanto vagarosa para escrever uma notícia digna de ser lida, mas aquele velho mito de que estagiário sempre trabalha em dobro (e recebe em terço), e faz tudo que os mais experientes não gostam, agora é uma filosofia de vida para mim, que trabalho até às 18h30 e sempre chego atrasada na facul. Podiam ser mais compreensivos, diminuir as horas de escravidão... quer dizer... de estágio. Ops, sem lamúrias!

Voltando ao assunto, o jornalismo literário é fácil de ser compreendido, contudo, mais complexo de ser executado. A subjetividade, quando usada sem um certo equilíbrio, pode deixar o texto com um ar ‘opinativo rabujento’, aquele que é porque é e acabou, sem argumentos, sem sustentação lógica. O excesso de detalhes sem relevância ou de ‘floreamento’ do fato também pode comprometer a intenção do texto, sem contar que pode deixá-lo cansativo.

A professora Cláudia, que foi quem passou esses preceitos do jornalismo literário na faculdade, diz que atualmente a imprensa tende a ser pasteurizada. Os formatos jornalísticos tentam moldar os textos. Por isso, muitos jornalistas encontram no 'jornalismo literário' a possibilidade de realizar trabalhos de qualidade, com maior aprofundamento do tema e maior liberdade na produção de texto.

Ela sempre destaca que o estilo literário é um jornalismo em profundidade. “Permite observar detalhes, expressar sensações e sentimentos, porque há a imersão do autor na realidade e seu olhar sobre ela, o que chamamos de voz autoral. É um olhar mais intenso sobre o outro. Totalmente diferente do distanciamento proposto pelo jornalismo padrão: ‘É preciso haver distanciamento para que haja isenção’”.

Infelizmente, a mídia tende a não dar espaço para os textos literários. De que adianta escrever sem ter onde publicar? A professora consegue ver com um pouco mais de otimismo... “Ao mesmo tempo em que a mídia busca moldar o texto, há um certo esgotamento com esse estilo por parte de uma parcela do público leitor. Por isso, há demanda. Não é à toa que a revista Brasileiros é bem recebida. Um bom livro-reportagem vende”.

É, a nova geração de jornalistas é bastante flexível em relação aos estilos e parece compreender que certos fatos devem, obrigatoriamente, ser noticiados de acordo com os moldes do lead para não perderem o foco, enquanto outros podem ser menos engessados e ter um pouco mais de criatividade no uso das palavras. Mas e os “dinossauros” das redações? Aqueles jornalistas que estão há anos repetindo “o quê, quem, quando, como, onde e por quê” até na hora de dormir? Será que eles se interessam pelo estilo ou teriam facilidade para escrever assim?

“Creio que há uma certa dificuldade para os jornalistas que estão na mídia redigindo diariamente em texto padrão, o formato notícia. Às vezes a nossa percepção se torna um pouco formatada. Por isso, alguns sentem dificuldade em entrar no estilo literário, que requer mais calma, sensibilidade, imersão. Mas é possível desenvolver esse estilo, basta procurar por ele”. Mais uma vez as pertinentes palavras de Cláudia!

Sobre o interesse dos alunos pelo estilo, ela diz acreditar que redigir no estilo literário proporciona imersão, prazer, aprofundamento e relação de intensidade com o texto. “Creio que essa sensação provoca esse interesse. Há algo mais que o lead”.

Aproveitando as informações da professora, (nada como fechar o texto com um bom conselho dos mais experientes) quais seriam as dicas para os simpatizantes do estilo? “É preciso ler. Só conseguimos desenvolver um bom texto a partir de uma boa leitura. Além disso, é preciso escrever. É preciso exercitar e gostar”.