
Donde surgiu mesmo essa idéia de escrever detalhadamente, e com mais emoção, sem muito se preocupar com aquelas benditas perguntinhas do lead jornalístico? Do jornalismo literário! Essa miscelânea entre texto jornalístico e literário, pelo que vejo, é muito apreciada pelos universitários de comunicação social que, após os primeiros anos de faculdade, quando o lead nos é apresentado como um verdadeiro herói, descobrem e vêem com otimismo essa nova possibilidade de criação textual capaz de comportar o potencial criativo normalmente reprimido pela objetividade.
A aceitação do jornalismo literário vem se mostrando tão intensa que a revista da Intercom (Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação) realizou uma pesquisa entre leitores para documentar o fato. Para tanto, a mesma notícia foi exibida de quatro diferentes formas. Questionados sobre qual daqueles textos eles mais gostaram, os leitores elegeram o Jornalismo Literário como o melhor e, por último, o lead.
Jornalistas-escritores como Gay Talese, Norman Mailer, Truman Capote, Marcos Faerman, José Hamilton Ribeiro e Roberto Freire são freqüentemente analisados e comentados durante as aulas desse estilo. Uma pena que eu não tenha comparecido em todas as aulas para ser mais ‘entendida’ sobre o assunto! Poxa... estágio e hora certa de expediente estão sempre em contradição. Que culpa tenho eu se a faculdade pede estágio e o estágio pede produção?! Tá certo, confesso que essa operária da informação ainda é um tanto quanto vagarosa para escrever uma notícia digna de ser lida, mas aquele velho mito de que estagiário sempre trabalha em dobro (e recebe em terço), e faz tudo que os mais experientes não gostam, agora é uma filosofia de vida para mim, que trabalho até às 18h30 e sempre chego atrasada na facul. Podiam ser mais compreensivos, diminuir as horas de escravidão... quer dizer... de estágio. Ops, sem lamúrias!
Voltando ao assunto, o jornalismo literário é fácil de ser compreendido, contudo, mais complexo de ser executado. A subjetividade, quando usada sem um certo equilíbrio, pode deixar o texto com um ar ‘opinativo rabujento’, aquele que é porque é e acabou, sem argumentos, sem sustentação lógica. O excesso de detalhes sem relevância ou de ‘floreamento’ do fato também pode comprometer a intenção do texto, sem contar que pode deixá-lo cansativo.
A professora Cláudia, que foi quem passou esses preceitos do jornalismo literário na faculdade, diz que atualmente a imprensa tende a ser pasteurizada. Os formatos jornalísticos tentam moldar os textos. Por isso, muitos jornalistas encontram no 'jornalismo literário' a possibilidade de realizar trabalhos de qualidade, com maior aprofundamento do tema e maior liberdade na produção de texto.
Ela sempre destaca que o estilo literário é um jornalismo em profundidade. “Permite observar detalhes, expressar sensações e sentimentos, porque há a imersão do autor na realidade e seu olhar sobre ela, o que chamamos de voz autoral. É um olhar mais intenso sobre o outro. Totalmente diferente do distanciamento proposto pelo jornalismo padrão: ‘É preciso haver distanciamento para que haja isenção’”.
Infelizmente, a mídia tende a não dar espaço para os textos literários. De que adianta escrever sem ter onde publicar? A professora consegue ver com um pouco mais de otimismo... “Ao mesmo tempo em que a mídia busca moldar o texto, há um certo esgotamento com esse estilo por parte de uma parcela do público leitor. Por isso, há demanda. Não é à toa que a revista Brasileiros é bem recebida. Um bom livro-reportagem vende”.
É, a nova geração de jornalistas é bastante flexível em relação aos estilos e parece compreender que certos fatos devem, obrigatoriamente, ser noticiados de acordo com os moldes do lead para não perderem o foco, enquanto outros podem ser menos engessados e ter um pouco mais de criatividade no uso das palavras. Mas e os “dinossauros” das redações? Aqueles jornalistas que estão há anos repetindo “o quê, quem, quando, como, onde e por quê” até na hora de dormir? Será que eles se interessam pelo estilo ou teriam facilidade para escrever assim?
“Creio que há uma certa dificuldade para os jornalistas que estão na mídia redigindo diariamente em texto padrão, o formato notícia. Às vezes a nossa percepção se torna um pouco formatada. Por isso, alguns sentem dificuldade em entrar no estilo literário, que requer mais calma, sensibilidade, imersão. Mas é possível desenvolver esse estilo, basta procurar por ele”. Mais uma vez as pertinentes palavras de Cláudia!
Sobre o interesse dos alunos pelo estilo, ela diz acreditar que redigir no estilo literário proporciona imersão, prazer, aprofundamento e relação de intensidade com o texto. “Creio que essa sensação provoca esse interesse. Há algo mais que o lead”.
Aproveitando as informações da professora, (nada como fechar o texto com um bom conselho dos mais experientes) quais seriam as dicas para os simpatizantes do estilo? “É preciso ler. Só conseguimos desenvolver um bom texto a partir de uma boa leitura. Além disso, é preciso escrever. É preciso exercitar e gostar”.
2 comentários:
"De que adianta escrever sem ter onde publicar?"
Por que não podemos criar nossos próprios veículos? Se apenas UMA outra pessoa ler o que você tiver escrito, a comunicação já terá sido feita. Algo já terá sido acrescentado, informado e/ou discutido.
Po, a leitura do último Garagem me serviu, além de outras coisas, para lembrar de que este blog existia. E, para minha surpresa, você está produzindo bastante para ele. Vou ler todos os textos, mas, infelizmente, não sei se terei tempo parar comentar todos. Parabéns!!!!
Postar um comentário