quinta-feira, 13 de março de 2008

Maria, seus irmãos e o resto do mundo


Quando pequena, Maria costumava brincar de tudo com seus irmãos, inclusive de corrida de carrinhos, de jogar bola ou de lutinhas.
No ápice das brincadeiras a mãe chamava:
- Maria! Vem me ajudar na cozinha!
Mesmo sem entender direito o porquê dos seus irmãos poderem continuar brincando e ela não, Maria obedecia. Claro que enxugava a louça do almoço e contribuía com outros afazeres a contra gosto, já que era muito mais divertido ficar brincando.

A garota sabia que havia uma diferença evidente entre ela e os irmãos, mas as privações e insinuações de que ela deveria se portar de uma forma completamente regrada, enquanto eles não precisavam em nada se preocupar, começaram a fomentar uma certa revolta na cabeça da pequena.

- Fale baixo, sente-se de pernas fechadas, penteie direito o cabelo, fique longe dos moleques, não responda a ninguém. Ajude a arrumar a casa, aprenda a fazer arroz e seja uma boa aluna.
A orientação sobre ser bom aluno também valia para seus irmãos, mas obviamente era muito mais constrangedor para uma mãe ser chamada na escola em razão do mau comportamento da filha do que pela bagunça dos filhos.
Se os meninos aparecessem de graça com alguma garota é porque eram espertos. Porém... “– Desrespeito! Não pode nem dar ouvidos a este tipo de conversinha”. Esse era o conselho dado a Maria, caso algum garoto se aproximasse.

- Por que eu não posso ficar na rua brincando? Qual o problema com a minha roupa? Por que meus assuntos são limitados e os deles não? Por que eu preciso passar batom para ficar mais bonita? Por que preciso dar tanta satisfação? Por que me tratam tão diferente?
Essas e tantas outras indagações obtiveram respostas. Respostas essas que só comprovavam o quanto era tudo muito mais simples para os homens e complicado para as mulheres.

Durante as idas ao salão de cabeleireiro com a mãe, as conversas chegavam a enjoar a pequena.
- Preciso ir logo para fazer a janta; meu marido fez isso e aquilo outro; a gravidez acabou com meu corpo; vida de mulher casada é um terror; estica mais meu cabelo que é para a escova durar; não pinta minha unha de vermelho porque o João não gosta; vou fazer simpatia para ele não procurar a outra.

Ah! Mas que vidinha mais injusta essa... como elas se conformam com isso? Será que nenhuma mulher tem vontade própria?
Mariazinha passou a perceber que a limitação de idéias e a trajetória previsível de tantas mulheres eram piores do que o machismo impregnado na sociedade.
As coisas devem mesmo funcionar assim ou elas é quem se submetem demais?

As barreiras morais sempre foram bem mais rígidas para a ala feminina.
Talvez isso seja até positivo, já que contribuí para a formação de uma pessoa mais reservada e menos exposta à tantas situações indesejáveis que assolam a vida de inúmeras garotas, como a gravidez precoce e indesejada; o relacionamento sem respeito ocasionado pela falta de critérios para escolher um parceiro; a dificuldade para conseguir um emprego em razão da ausência de formação profissional e a própria desvalorização da mulher em si, já que nem todas as famílias possuem exemplos de mulheres que têm uma vida digna.

Assim como Maria, milhares de mulheres sabem e sentem o quanto é trabalhoso passar por cima de todos os estigmas e fragmentos de uma sociedade moldada em leis machistas. Assim como ela, muitas percebem como é duplamente difícil para a mulher percorrer com sucesso todas as etapas para uma vida feliz pessoal e profissionalmente.

Hoje, o Dia Internacional da Mulher coroa a hipocrisia de uma sociedade que é omissa diante do adultério masculino e ultra precipitada ao condenar os relacionamentos femininos; uma sociedade que prega a valorização da mulher, mas coloca em evidência àquelas que tem como único atributo seu corpo; uma sociedade onde os homens dizem respeitar a intelectualidade da mulher e esquecem da inteligência de suas esposas procurando outras na primeira esquina; uma sociedade que exalta a beleza interior, mas impõe padrões estéticos surreais principalmente para as mulheres e, mesmo as que tentam disso fugir, correm graves riscos de ficar com a auto-estima baixa, já que as outras têm mais atenção.

Ser mulher, de verdade, não é apenas usar o sanitário sentada, vestir saias e vestidos, salto alto e maquiagem. É ser tudo que um homem pode ser e estar cheirosa ao final do dia. É ter tantas obrigações quanto ele e ainda se preocupar com as notas do filho na escola. É ignorar que ele está cada vez mais relapso e mesmo assim se arrumar para o próximo encontro. É sentir a dor do parto e fazer daquele ser que nasce, em meio a tanta a dor, a verdadeira razão de sua vida. É ter a petulância de enxergar tudo isso e não ser uma pessimista. É ter coragem de se assumir mulher, no sentido mais amplo da palavra.


Ele diz “viva ao dia da mulher!”. E xinga o outro de filho da put_ assim que puder.
“As mulheres são verdadeiros anjos!” e quando ela estiver toda enrugada troca a de 50 por duas de 25 anos.
“Viva ao dia da mulher!” e a secretária faz o serviço da esposa quando ela não puder.
“A mulher representa o amor!” e em casa aumenta o tom de voz como se estivesse falando com um ser inferior.
“Viva ao dia da mulher!” e se ela está sozinha aos 30 é porque ninguém a quer.
“A mulher é respeitada!” e dá mais audiência aos clips da Britney Spears do que à entrevista da deputada.
“Viva ao dia da mulher!” mas larga a esposa em casa e sua diversão é ver a próxima playboy numa banca qualquer.
“Viva ao dia da mulher!”, “Viva ao dia da mulher!”
(Conclusão da aspirante à jornalista após cobrir mais de cinco eventos em comemoração ao Dia Internacional da Mulher)

segunda-feira, 3 de março de 2008

Complexo de Pagú



Daqui alguns dias é 08 de março, dia Internacional da Mulher. Uma data em que no mundo inteiro nós, mulheres, somos lembradas, homenageadas e ‘bem ditas’. Nessas 24 horas são deixadas de lado todas as controvérsias do sexo frágil, todas aquelas insinuações de que a força masculina ainda prevalece sobre a capacidade intelectual da mulher e, no decorrer do dia, somos bombardeadas com felicitações, palavras dóceis, frases de efeito e poemas de lirismo quase surreal.

Há o que comemorar? Sim, houve uma evolução significativa no papel da mulher na sociedade. Mas ainda assim, além das dificuldades (resultantes de uma acumulação de funções: profissional, mãe, esposa, amiga, etc) e barreiras morais, existe uma acomodação de uma parcela feminina que não faz uso de senso crítico próprio, que não questiona a associação de mulher com objeto e, pior, não percebe que sua história tem mais valor que a de que qualquer novela da Globo.

É lamentável que essa evolução da mulher não tenha ocorrido, também, na mentalidade daquelas que ainda se vêem aprisionadas a uma limitação de ações e idéias, apenas por serem mulheres. Apenas por serem mulheres? É justamente isso que deveria estimulá-las a lutar e persistir, afinal, somos nós quem sofremos a dor do parto e nem por isso deixamos de procriar. Os homens seriam os responsáveis por uma diminuição catastrófica da taxa de natalidade no mundo caso essa tarefa fosse atribuída a eles. Contudo, é irônico observar, por exemplo, a pequena participação feminina no cenário político, esportivo e em tantas outras áreas que ainda são prioritariamente para homens.

A vida de uma mulher é preciosa demais para ser reduzida a um dia e complexa o suficiente para ser estrela apenas em comerciais de cerveja. Infinitamente forte para se deixar levar por conversinhas fúteis e palavras autoritárias e, portanto, mais importante que a vida dos BBB´s. Merecemos ou não nos valorizarmos mais? A garra daquelas corajosas mulheres de 1857, mortas por reivindicarem seus direitos trabalhistas, serviu de inspiração para o “Dia da Mulher”, mas, infelizmente, essa força feminina parece estar em extinção.





Pagú

Rita Lee / Zélia Duncan



Mexo, remexo na inquisição.
Só quem já morreu na fogueira,
sabe o que é ser carvão.
Eu sou pau pra toda obra,
Deus dá asas à minha cobra.
Minha força não é bruta,
não sou freira nem sou puta.

Nem toda feiticeira é corcunda,
nem toda brasileira é bunda.
Meu peito não é de silicone,
sou mais macho que muito homem.

Sou rainha do meu tanque,
sou pagu indignada no palanque.
Fama de porra-louca, tudo bem,
minha mãe é Maria ninguém.
Não sou atriz, modelo, dançarina.
Meu buraco é mais em cima.