
Tomada por um sentimento de solidariedade e alívio diante do final daquele episódio delicado, cheguei até os familiares da vítima - com os quais já havia conversado durante o dia- e só fui capaz de fazer uma única pergunta, face a toda emoção que aquele momento representava. “A sentença foi justa para vocês?”, questionei, enquanto apertava a mão da irmã mais nova de Daniela, morta pelo namorado aos 17 anos, grávida de cinco meses. “Sei bem que nada disso trará minha irmã de volta. Mas independente dele ter disparado intencionalmente ou não, a justiça tem que ser feita. Acredito que sim, essa é uma forma justa dele pagar pelo que fez”, respondeu, trêmula, a caçula da família.
Seus pais, visivelmente emocionados e timidamente satisfeitos com a sentença, disseram que preferiam preservar seus nomes, assim como o da filha mais nova. Lembrando a pergunta que eu havia feito segundos antes, direcionada a eles todos, o pai de Daniela humildemente respondeu: “Só podemos tentar ficar em paz, mesmo com a triste ausência dela, e acreditar que a justiça está sendo feita”. Com um leve movimento de afirmação, ao balançar a cabeça, olhei para cada um daqueles rostos tentando imaginar se a dor que se fazia tão presente em suas vidas poderia ser amenizada através da prisão de uma pessoa. Sem resposta, e receosa de ter me mostrado inconveniente, deixei os familiares da vítima.
3 comentários:
Começou pelo começo...Bom, às vezes me pego pensando e situações semelhantes ao do réu desse post. Como uma atitude impensada, impulsiva, pode mudar completamente a vida e o futuro que a gente tanto planeja. Agora, o ponto principal, que vc inteligentemente tocou, é o da justiça, que de reformadora não tem nada.
Se vc ler o meu livro: A Idade da Razão, vai conhecer o pensamento do réu, que se assemelha ao personagem principal: Mathieu Delarue. Seguindo o pensamento existencialista, a liberdade. Talvez vc veja isso de outra maneira.
Jean-Paul Sartre
É preciso muita coragem e desapego a este mundo para admitir. Mas tudo tem um propósito maior. O que nos parece surpreendente e assustador, acontece por estarmos presos ao aspecto físico do mundo. A guerra é mais profunda.
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