sexta-feira, 2 de maio de 2008

Justiça para aqueles, tragédia para esses... (parte II)

O réu, que durante todo o julgamento permanecera de costas para o público, inclusive para sua família, finalmente pôde encarar de frente todo aquele universo de sensações e questionamentos. Com um olhar cabisbaixo e complacente, indicando compreensão com o seu destino ali traçado, ele parecia buscar sabedoria para transmitir calma aos familiares, aparentemente inconformados com o seu futuro encarcerado.

Mesmo ciente de todo os detalhes daquela tragédia, protagonizada por uma pessoa de 18 anos problemática e desprovida de responsabilidade, o semblante do réu causou-me espanto por lembrar o de um adolescente. Enquanto ele mantinha-se de costas, a imagem que eu fazia do autor do assassinato era a de um homem com uma expressão que revelava sua maldade. Não que eu imaginasse um ser assustador, mas sim uma pessoa com traços de irracionalidade. E, de repente, me senti triste e surpresa ao vê-lo. Aquele homem de 24 anos, com uma feição tão ingênua e juvenil, estava fadado a passar longos anos na prisão.

O desespero de minhas idéias certamente foi o mesmo que motivou o choro e o lamento de toda a família. Por mais que não tivesse intimidade alguma com aquela pessoa, e nem se quer soubesse nada sobre sua vida antes daquele dia incomum, senti um aperto forte ao visualizar o passar dos anos e tudo o que sucederia na vida daquele garoto. Mesmo sendo ele culpado e ainda que a lei estivesse sendo friamente cumprida, era deprimente a constatação de que em 17 anos o jovem seria mais um formado na faculdade do crime. O que mais haveria de aprender na cadeia? Como conseguiria evoluir para o bem estando sujeito a tantas situações constrangedoras e ao relacionamento com pessoas ruins?

O fato é que, enquanto a família da vítima parecia estar pronta para sair de um pesadelo, a família do réu parecia estar prestes a entrar em um. Ainda que soubessem que ele não sairia dali solto, os parentes do jovem expressavam em suas palavras e no choro incontido toda a dor que sentiam naquele instante, a ser eternizado em suas vidas por pelo menos 17 anos.

Imaginei uma possível aproximação, mas julguei definitivamente covarde qualquer tentativa de perguntar algo àquelas pessoas. Os abraços sufocantes, as mãos trêmulas e os olhos inundados respondiam por si só ...e não havia palavra alguma que expressasse melhor o pesar daquela gente.

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