domingo, 20 de julho de 2008

Enquête popular

Entrevistar pessoas anônimas, assim como autoridades, dá trabalho. Primeiro porque a abordagem inicial é sempre difícil. Muitas pessoas ficam intimidades com o gravador, ou dão a entrevista, mas não aceitam tirar foto. Pior ainda é quando não estão informadas a respeito do assunto sobre o qual são questionadas. É uma tarefa difícil, mas prazerosa. Não raras vezes, o povo, com toda sua simplicidade, mostra que a sabedoria popular ainda é tão salutar quanto o conhecimento de especialistas.

Enquête popular é sempre um desafio e, ao final, percebo que grandes transtornos geram grandes aprendizados. O último deles foi que jornalistas mulheres nem sempre podem ir às ruas sozinhas. Ter uma segunda pessoa auxiliando é necessário, de acordo com o tema da pauta. Entrevistar homens em bares, sobre a Lei Seca, por exemplo, é coisa que não se deve fazer sozinha. Ter ousadia é preciso, contudo, segurança é ainda mais fundamental. O que alivia é o resultado final: ninguém sabe os apuros que você passou para conseguir a matéria, mas, quando ela finalmente dá certo, o reconhecimento coroa o esforço.

Resultado da última enquête:

Lei Seca tem alto índice de
aprovação entre arujaenses

Legenda: Márcio Sampaio, da Chopperia Sem Parar: houve uma queda de 20% no movimento dos últimos finais de semana

Sancionada há pouco menos de um mês pelo presidente Luis Inácio Lula da Silva, a Lei Seca já surtiu efeitos significativos na cidade de São Paulo. Embora o município de Arujá não tenha recebido ainda o bafômetro (aparelho utilizado para medir o teor alcoólico) do Governo do Estado, os resultados noticiados pela grande imprensa parecem ter repercutido na opinião de muitos arujaenses que, em pesquisa realizada essa semana pelo Jornal, mostraram-se favoráveis à nova lei.

A maioria dos entrevistados aprova a medida e sustenta sua opinião com base na redução de 57% no número de mortes por acidentes de trânsito na Capital, dado que foi oficialmente divulgado pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo. Em contraponto, a rigidez da Lei Seca e a queda de movimento em bares e similares foram as principais justificativas apresentadas por aqueles que disseram-se, ideologicamente, contra a nova regra.

A diminuição na venda de bebidas alcoólicas afeta não somente os estabelecimentos de São Paulo, onde os comerciantes começam a criar estratégias para manter sua clientela. Segundo Márcio Sampaio, gerente da popular chopperia Sem Parar, uma queda de 20% foi registrada no movimento dos últimos finais de semana no local. Para ele, a Lei Seca e o tempo frio são os fatores responsáveis por essa nova estatística.

“Como gerente, sinto que os bares e comércios que vendem bebida alcoólica estão sendo bastante prejudicados. A lei está bem rígida e ninguém quer brincar e correr o risco de ser multado. O cliente que vem e gosta de tomar bebida alcoólica não fica mais o tempo que ele ficaria normalmente, ou seja, mesmo que ele substitua a cerveja por um suco, o consumo diminui”, explica Márcio, que há um ano trabalha na chopperia.

Questionado sobre sua opinião em relação à proposta da Lei Seca, o gerente mostrou-se dividido. “Com a visão de quem sobrevive da venda de bebidas, posso dizer que a medida deveria ser mais tolerante porque ela está severa demais e irá prejudicar o comércio. Mas, como cidadão, acho que é preciso prevenir acidentes. Andar com mais tranqüilidade no trânsito é uma melhoria importante”, ponderou.

Com 25 anos de atuação no município, o mecânico ‘Zezinho’ já foi responsável pelo conserto de inúmeros carros provenientes de acidentes de trânsito ocasionados por motoristas embriagados. Ainda que o rigor da nova lei diminua o número de automóveis a serem consertados em sua mecânica, ele diz que as ruas tendem a ficar mais seguras e, por isso, é favorável à medida. “Tem que existir essa regra mais severa. Com certeza eu vou ter menos trabalho, mas a segurança vai aumentar”, enfatizou.

Cristiano Carbonari mora em Arujá e trabalha em Guarulhos. Ele acredita que todo trabalhador tem o direito de, ao final do dia, tomar pelo menos uma taça de vinho ou uma dose de vodka para relaxar, contanto que não perturbe ninguém. Cristiano não é favorável à Lei Seca, mas se diz contra as pessoas que dirigem embriagadas.

“Eu sou contra o cara que fica bêbado e vai embora dirigindo. A lei diminuí o número de acidentes porque intimida as pessoas. Você a proíbe, não a convence de que é errado. É mais eficaz pensar em uma forma de educar para que ela beba menos e dirija com cuidado”, argumentou, enquanto tomava o aperitivo pós fim de expediente. “Eu bebo, mas moro ao lado. Não preciso de carro para chegar em casa”, justificou Cristiano.

De outro lado, o ‘velho de guerra’ Estelito, conhecido produtor de eventos, acompanha com alivio os resultados da nova medida. Ele relata que, há algum tempo, também passou da conta e viu de perto o perigo que o excesso de álcool pode causar quando começa a afetar os sentidos das pessoas.

“Já morreu muita gente no caminho de Arujá para Mogi das Cruzes por causa da bebida. Então a regra vai dar uma boa regulada nesse aspecto. Antes a lei seca controlando a ingestão de bebidas, do que outra lei proibindo o comércio de vender seus produtos. Agora é assim, bebeu, tem que assumir a responsabilidade”, salientou. Com ares de inconseqüente assumido, o produtor completa “o pessoal está bebendo muito. Eu, inclusive, me policiei um pouco mais”, concluiu.

Box
Saiba mais sobre a Lei Seca

A lei seca foi sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no dia 19 de junho com o intuito de agir com maior rigor contra o motorista que ingerir bebidas alcoólicas. O texto da lei, aprovado pela Câmara no início de junho, passa a considerar crime conduzir veículos com qualquer teor de álcool no organismo.

A punição para quem não cumprir a lei será considerada gravíssima e prevê suspensão da carteira de habilitação por um ano, além de multa de R$ 955 e retenção do veículo.

A suspensão por um ano do direito de dirigir é feita a partir de 0,1 mg de álcool por litro de ar expelido no exame do bafômetro (ou 2 dg de álcool por litro de sangue). Acima de 0,3 mg de álcool no ar expelido (ou 6 dg por litro de sangue), a punição inclui também a detenção do motorista (de seis meses a três anos).

Com a nova lei, o homicídio praticado por motorista deixa de ser culposo e passa a ser doloso (com intenção). A lei retira do Código de Trânsito Brasileiro o agravante para a pena de homicídio culposo (sem intenção de matar) por entender que dirigir sob efeito do álcool é crime.

Um comentário:

Anônimo disse...

Sorry if I commented your blog, but you have a nice idea.