sexta-feira, 4 de julho de 2008

Pautas e autoridades



“Bom dia

Hoje o senador Mercante visitará a região.
Você deverá questioná-lo, primordialmente, sobre o assunto ‘x’

Obs.: Será a matéria de destaque amanhã


Att: chefe de redação”


Autoridades de reconhecimento nacional costumam ser pouco acessíveis. Andam rodeadas por uma multidão; estão sempre com muita pressa: se dizem atrasadas para um próximo compromisso. Além disso, mostram que estão ‘na defensiva’ quando abordados pela imprensa e, às vezes, chegam a responder grosseiramente perguntas consideradas desagradáveis.

Entre povo, personalidades e assessores, jornalistas arranjam espaço e tentam cumprir seu trabalho, ainda que para isso precisem ser pisoteados e, em casos extremos, até destratados por tietes e seguranças.


Mesmo lembrando os traumas com personalidades desse tipo, o e-mail acima - enviado pelo chefe de redação - não causou a ansiedade e o medo que normalmente surgem com pautas difíceis. Talvez, inconscientemente, eu tenha imaginado que entrevistar o senador não seria tão ruim quanto o governador de São Paulo, José Serra.

Em visita à região, o governador deixou com respostas medíocres até os jornalistas mais experientes (imagine os pobres estagiários). Quando finalmente consegui me aproximar dele, fui repreendida pela assessora de imprensa: “ele já está atrasado. Não há tempo para mais perguntas”. Isso seria suficiente para me fazer desistir, caso não estivesse sob minha responsabilidade a matéria para dois veículos de comunicação.

Todos começaram a se movimentar acompanhando o passo de Serra, que já havia virado as costas para caminhar em direção ao seu helicóptero. Numa atitude impulsiva e ousada, puxei levemente a gola do governador (estava atrás dele). Com o coração disparado, aproveitei o olhar curioso que ele lançou em minha direção e pedi: só UMA pergunta, por favor. Todos os flashes e gravadores a postos novamente. Trêmula e bastante intimidada, finalmente fiz a pergunta que tanto me atormentava. Era sobre segurança pública.

-Quê? Hum....Bom, não sei. É melhor perguntar isso ao Marzagão [secretário de segurança].
Depois da brilhante resposta, virou-se e foi embora. Eu fiquei. Fiquei vermelha, desnorteada e me sentindo um lixo como profissional. Recebi todos os olhares de solidariedade dos colegas que perceberam o esforço e minha insatisfação diante da indiferença demonstrada por Serra. Apesar daquilo que, a meu ver, foi um constrangimento, consegui a sonora, fiz as matérias.......... Missão cumprida, apesar dos pesares.

E o Mercadante? Felizmente, minha intuição estava certa. Também não foi fácil a busca por mais uma ‘exclusiva’ - coletivas não têm graça e, além disso, a sonora não fica com a mesma qualidade. Por coincidência, foi quase a mesma metodologia descrita nas linhas anteriores. Após muita conversa com os militantes do PT, autoridades, simpatizantes e curiosos, o senador despediu-se e parou para tirar uma última foto com um fã. Enquanto eles se ajeitavam para a pose, fiz mímica e pedi: só UMA pergunta. Mesmo com o alerta de “ele não tem mais tempo” da assessoria, Mercadante mostrou-se receptivo. Foram três perguntas para três respostas bem articuladas. Missão cumprida! E dessa vez, sem passar vergonha e sem‘pesares’ no final ....

Detalhe, quando conversava com militantes petistas, Mercadante deixou o entusiasmo aflorar em suas palavras. Engraçado que uma piada feita por ele me deixou, desnecessariamente, encabulada. “Tucano tem bico grande, mas voa curto e ‘caga’ mole”. Minha cara de desaprovação foi tão notória que o próprio senador viu e emendou: com o perdão da palavra, é claro.

2 comentários:

Unknown disse...

Você consegue retratar bem nossas atividades diárias de "estagiários" de jornalismo. Atividades muitas vezes tortuosas, diria eu.

Pedro disse...

Esse é o dia a dia né...agora vai dizer que teria graça se fosse tudo bem facil?
"Governador,posso fazer uma entrevista com o senhor?
- Olha,se não passar de duas horas pode sim,estou atrasado".

não seria tão emocionante ser jornalista nessas situações