A falta de matérias daquele dia fatigante começava a gerar ansiedade, já que nenhuma pauta tinha dado certo naquela manhã. A concentração de viaturas e pessoas chamou atenção quando passei pelo local onde começava aquele que, algumas horas depois, seria o principal assunto da cidade: o julgamento de Daniel Farias, acusado de assassinar com um tiro na testa Daniela Freitas, aos 17 anos e grávida de cinco meses.
Os julgamentos são naturalmente emocionantes no final e entediantes no começo. Antes da apresentação da promotoria, do advogado de defesa, da réplica, tréplica e sentença, muitas informações são minuciosamente lidas. As testemunhas são ouvidas, questionadas e há todo um procedimento padrão, bastante formal e demorado. Contudo, o último julgamento no qual estive tornou-se um grande aprendizado e despertou em mim a vontade de presenciar mais esse júri.
Juíza, promotor, advogado, réu, testemunhas, júri e público. Todos estrategicamente posicionados para o ato, como num cenário de filme. Pouco a pouco os dados de todo o crime são apresentados com riqueza de detalhes e possibilitam a construção visual daquele infeliz acontecimento, que culminou com a morte de uma jovem e seu filho, ainda acalentado no ventre materno.
Em 12 de junho de 2002, Daniela saí de sua casa para passar alguns dias com o namorado. No dia seguinte, ela, suas cunhadas e Daniel assistiam a um jogo da Copa do Mundo quando, num momento de euforia e estupidez, o jovem pega sua arma e dispara dentro de casa em comemoração ao gol da seleção brasileira. A bala atinge na testa aquela que durante 11 meses havia sido sua companheira. Intencional ou não, o tiro tinha um autor e após seis anos ele estava diante da justiça para ser julgado.
“A voz do povo é a voz de Deus, portanto esse júri popular será responsável por prenunciar a vontade divina”, declarou, convicto, o advogado de defesa. Antes que a juíza começasse a se pronunciar, o som estrondoso e inconveniente de um celular ameaçou a paz do recinto. Sim, mais uma vez a aspirante a jornalista pagava um de seus clássicos micos na humilde tentativa de exercer a profissão. O celular era meu e fui obrigada a me retirar sob os olhares de condenação e profunda irritação de todos os presentes.
Passado o momento de embaraço, voltei na tentativa de que meus passos leves e concisos, assim como minha figura pequena e tímida, chegassem novamente ao assento sem serem percebidos. Felizmente, só fui notada novamente quando me aproximei da família da vítima, que fez a gentileza de contextualizar toda a história e fornecer mais informações para a matéria. Ao partir para o almoço, a irmã de Daniela, num gesto de empatia, perguntou com seus olhos sofridos “você volta, não é?”. Sim, daqui uma hora eu volto, respondi, sensibilizada pelo apreço que em tão pouco tempo despertei na garota.
Ao retornar, fiquei mais atenta às expressões corporais de ambas as famílias e também dos advogados e promotor, que bravamente tentavam convencer o júri de suas teses. Teses essas que foram amplamente discutidas, rebatidas e analisadas, enquanto as mãos impacientes, olhares apreensivos e bocas entreabertas do público revelavam toda a tensão do momento.
Mais que um simples ato judicial, aquele era um evento do qual muitas pessoas sairiam transformadas. O réu teria um destino e as famílias um novo sentimento, de justiça ou inconformismo, mas aliviador pela certeza de que ali fora anunciado, finalmente, um desfecho. Desfecho forte para quem vive, forte para quem vê. Depois da sentença e das observações, deixei o cenário. Desta vez, diferente da forma como entrei.