sexta-feira, 2 de maio de 2008

Justiça.... a minha ou a sua? (parte III)


Para toda a família da garota, ali representada por três pessoas, as palavras proferidas pela juíza soaram como uma expressiva e libertadora canção de vitória. Aquele que fora responsável pela morte da jovem Daniela deverá, de acordo com a sentença, responder por seus atos cumprindo 17 anos de reclusão na cadeia. Naquela noite o julgamento, que havia começado às 9 horas da manhã, finalmente encerrava-se com o desfecho do caso que vitimou não apenas a adolescente assassinada, mas as famílias e amigos de todos os envolvidos no crime.

Tomada por um sentimento de solidariedade e alívio diante do final daquele episódio delicado, cheguei até os familiares da vítima - com os quais já havia conversado durante o dia- e só fui capaz de fazer uma única pergunta, face a toda emoção que aquele momento representava. “A sentença foi justa para vocês?”, questionei, enquanto apertava a mão da irmã mais nova de Daniela, morta pelo namorado aos 17 anos, grávida de cinco meses. “Sei bem que nada disso trará minha irmã de volta. Mas independente dele ter disparado intencionalmente ou não, a justiça tem que ser feita. Acredito que sim, essa é uma forma justa dele pagar pelo que fez”, respondeu, trêmula, a caçula da família.

Seus pais, visivelmente emocionados e timidamente satisfeitos com a sentença, disseram que preferiam preservar seus nomes, assim como o da filha mais nova. Lembrando a pergunta que eu havia feito segundos antes, direcionada a eles todos, o pai de Daniela humildemente respondeu: “Só podemos tentar ficar em paz, mesmo com a triste ausência dela, e acreditar que a justiça está sendo feita”. Com um leve movimento de afirmação, ao balançar a cabeça, olhei para cada um daqueles rostos tentando imaginar se a dor que se fazia tão presente em suas vidas poderia ser amenizada através da prisão de uma pessoa. Sem resposta, e receosa de ter me mostrado inconveniente, deixei os familiares da vítima.

Justiça para aqueles, tragédia para esses... (parte II)

O réu, que durante todo o julgamento permanecera de costas para o público, inclusive para sua família, finalmente pôde encarar de frente todo aquele universo de sensações e questionamentos. Com um olhar cabisbaixo e complacente, indicando compreensão com o seu destino ali traçado, ele parecia buscar sabedoria para transmitir calma aos familiares, aparentemente inconformados com o seu futuro encarcerado.

Mesmo ciente de todo os detalhes daquela tragédia, protagonizada por uma pessoa de 18 anos problemática e desprovida de responsabilidade, o semblante do réu causou-me espanto por lembrar o de um adolescente. Enquanto ele mantinha-se de costas, a imagem que eu fazia do autor do assassinato era a de um homem com uma expressão que revelava sua maldade. Não que eu imaginasse um ser assustador, mas sim uma pessoa com traços de irracionalidade. E, de repente, me senti triste e surpresa ao vê-lo. Aquele homem de 24 anos, com uma feição tão ingênua e juvenil, estava fadado a passar longos anos na prisão.

O desespero de minhas idéias certamente foi o mesmo que motivou o choro e o lamento de toda a família. Por mais que não tivesse intimidade alguma com aquela pessoa, e nem se quer soubesse nada sobre sua vida antes daquele dia incomum, senti um aperto forte ao visualizar o passar dos anos e tudo o que sucederia na vida daquele garoto. Mesmo sendo ele culpado e ainda que a lei estivesse sendo friamente cumprida, era deprimente a constatação de que em 17 anos o jovem seria mais um formado na faculdade do crime. O que mais haveria de aprender na cadeia? Como conseguiria evoluir para o bem estando sujeito a tantas situações constrangedoras e ao relacionamento com pessoas ruins?

O fato é que, enquanto a família da vítima parecia estar pronta para sair de um pesadelo, a família do réu parecia estar prestes a entrar em um. Ainda que soubessem que ele não sairia dali solto, os parentes do jovem expressavam em suas palavras e no choro incontido toda a dor que sentiam naquele instante, a ser eternizado em suas vidas por pelo menos 17 anos.

Imaginei uma possível aproximação, mas julguei definitivamente covarde qualquer tentativa de perguntar algo àquelas pessoas. Os abraços sufocantes, as mãos trêmulas e os olhos inundados respondiam por si só ...e não havia palavra alguma que expressasse melhor o pesar daquela gente.

Forte para quem vive, forte para quem vê... (parte I)

A falta de matérias daquele dia fatigante começava a gerar ansiedade, já que nenhuma pauta tinha dado certo naquela manhã. A concentração de viaturas e pessoas chamou atenção quando passei pelo local onde começava aquele que, algumas horas depois, seria o principal assunto da cidade: o julgamento de Daniel Farias, acusado de assassinar com um tiro na testa Daniela Freitas, aos 17 anos e grávida de cinco meses.

Os julgamentos são naturalmente emocionantes no final e entediantes no começo. Antes da apresentação da promotoria, do advogado de defesa, da réplica, tréplica e sentença, muitas informações são minuciosamente lidas. As testemunhas são ouvidas, questionadas e há todo um procedimento padrão, bastante formal e demorado. Contudo, o último julgamento no qual estive tornou-se um grande aprendizado e despertou em mim a vontade de presenciar mais esse júri.

Juíza, promotor, advogado, réu, testemunhas, júri e público. Todos estrategicamente posicionados para o ato, como num cenário de filme. Pouco a pouco os dados de todo o crime são apresentados com riqueza de detalhes e possibilitam a construção visual daquele infeliz acontecimento, que culminou com a morte de uma jovem e seu filho, ainda acalentado no ventre materno.

Em 12 de junho de 2002, Daniela saí de sua casa para passar alguns dias com o namorado. No dia seguinte, ela, suas cunhadas e Daniel assistiam a um jogo da Copa do Mundo quando, num momento de euforia e estupidez, o jovem pega sua arma e dispara dentro de casa em comemoração ao gol da seleção brasileira. A bala atinge na testa aquela que durante 11 meses havia sido sua companheira. Intencional ou não, o tiro tinha um autor e após seis anos ele estava diante da justiça para ser julgado.

“A voz do povo é a voz de Deus, portanto esse júri popular será responsável por prenunciar a vontade divina”, declarou, convicto, o advogado de defesa. Antes que a juíza começasse a se pronunciar, o som estrondoso e inconveniente de um celular ameaçou a paz do recinto. Sim, mais uma vez a aspirante a jornalista pagava um de seus clássicos micos na humilde tentativa de exercer a profissão. O celular era meu e fui obrigada a me retirar sob os olhares de condenação e profunda irritação de todos os presentes.

Passado o momento de embaraço, voltei na tentativa de que meus passos leves e concisos, assim como minha figura pequena e tímida, chegassem novamente ao assento sem serem percebidos. Felizmente, só fui notada novamente quando me aproximei da família da vítima, que fez a gentileza de contextualizar toda a história e fornecer mais informações para a matéria. Ao partir para o almoço, a irmã de Daniela, num gesto de empatia, perguntou com seus olhos sofridos “você volta, não é?”. Sim, daqui uma hora eu volto, respondi, sensibilizada pelo apreço que em tão pouco tempo despertei na garota.

Ao retornar, fiquei mais atenta às expressões corporais de ambas as famílias e também dos advogados e promotor, que bravamente tentavam convencer o júri de suas teses. Teses essas que foram amplamente discutidas, rebatidas e analisadas, enquanto as mãos impacientes, olhares apreensivos e bocas entreabertas do público revelavam toda a tensão do momento.

Mais que um simples ato judicial, aquele era um evento do qual muitas pessoas sairiam transformadas. O réu teria um destino e as famílias um novo sentimento, de justiça ou inconformismo, mas aliviador pela certeza de que ali fora anunciado, finalmente, um desfecho. Desfecho forte para quem vive, forte para quem vê. Depois da sentença e das observações, deixei o cenário. Desta vez, diferente da forma como entrei.