Manipulam-se imagens, textos, fatos e dados. Nenhuma mídia está livre da distorção, da tendência partidária e da luta por seus interesses econômicos. Já não é novidade a desconfiança que se deve ter com o que é apresentado em noticiários de TV e rádio, jornais e internet. Ainda assim, é notória a grande influência que o meio provoca à percepção da sociedade, especialmente nas camadas mais excluídas, as quais têm menos opções informativas e, conseqüentemente, menor senso crítico.
Influenciar é errado? É errado buscar condições financeiras para viabilizar o veículo? É errado apresentar na mídia um ponto de vista noticioso diferente do senso comum? Não. Errado é o jornalista gabaritar-se de formador, quando na prática ele muitas vezes exerce o papel de DEformador de opinião. Errado é dizer-se imparcial quando sabemos que a opinião do veículo é expressa desde a escolha da pauta. Errado é declarar-se neutro, ciente de que em toda a matéria a seleção de dados e a estrutura textual estão intimamente ligadas à visão e repertório pessoal do jornalista.
Ora, a imprensa é – no fundo todos sabem – uma empresa, como outra qualquer. Sua matéria-prima é a informação e é através dela que se torna possível a sustentabilidade do meio. Afinal de contas [e que contas], como se manteria uma redação, a circulação das notícias e a estrutura do veículo não fosse a publicidade - seja essa em forma de anúncios ou matérias? Jornais, revistas, programas de rádio e tv precisam sobreviver e a lei de mercado nem sempre é favorável a mídia. Considerando-se isso, são compreensíveis as estratégias com fins lucrativos.
Dar visibilidade àquilo que tem importância razoável; enaltecer os bons resultados e omitir as falhas de empresas e personagens em matérias; noticiar assuntos e acontecimentos de objetivo publicitário e não jornalístico. Tudo isso e várias outras artimanhas - nada que ofenda diretamente a integridade moral dos veículos - são formas estabelecer uma relação amigável e estável com anunciantes e patrocinadores. O que incomoda e preocupa é outro tipo de propaganda, aquela que é feita incoerentemente por jornalistas.
Nesse tipo de publicidade é que acontece o embate ético da profissão. São as denúncias que não por acaso desfavorecem pessoal tal. Os elogios “da população” à autoridade x [que mantém contrato com o veículo]. Comentários telejornalísticos com pouca sustentação informativa e muita palpitação. Quantas vezes jornalistas são induzidos a contar a história de outra maneira? E pior, quantas vezes são complacentes com os pedidos mais ordinários dos chefes de redação? Assim como o veículo, o jornalista precisa sobreviver e a negativa a um pedido de esfera superior não raramente significa sua demissão.
E o que se pode fazer? Dizer não e perder o emprego? Priorizar a lei de mercado e esquecer os princípios éticos? Nada disso. A palavra chave é: resistência. Ao escrever as matérias “encomendadas”, não esquecer-se que sempre existem dois lados, ainda que sua empresa só queira saber de um. Ao ser induzido a comentar determinado assunto [em rádios], usar dados e fatos concretos para sua argumentação e não meramente a opinião exigida. Alertar seu público sobre o que é importante e não pôde ser divulgado. Mostrar um pouco mais dos bastidores...
Apesar de toda a pressão e da rotina absurdamente puxada, é preciso sempre lembrar que o jornalismo pode e deve ser um mobilizador social. Mas para isso, é necessário ganhar espaço e resistir. Resistir ao medo de ser substituído por alguém mais flexível, resistir aos pedidos tendenciosos, resistir o quanto se pode ao monstro da manipulação. Sempre tem alguém disposto a fazer o jogo sujo e, no fim, quem compra gato por lebre é o ouvinte, o telespectador, o leitor, o internauta, o João e a Maria. Por isso, lute para preservar seu lugar. Conquiste espaço e seja aquela pedra no sapato de quem quer matéria fácil. Mostre que ainda é possível aliar informação de qualidade e interesse público – e isso, é claro, sem que seu chefe perceba.
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"Eu acho que tenho certeza daquilo que eu quero agora
Daquilo que mando embora
Daquilo que me demora
Eu acho que tenho certeza daquilo que me conforma
Daquilo que quero entender
E não acomodar com o que incomoda
Não ME acomodar com o que incomoda"