quarta-feira, 29 de outubro de 2008

"Era só um dia tranqüilo..."





É tão belo quando tudo faz sentido...
ainda que efêmero, ainda que se vá....

O açogueiro que virou notícia.

O acidente que envolveu o carro e uma van escolar. [Nenhuma criança ferida].

O "caçador de abelhas" que resolveu tirar a família ameaçada do caos.


Há dias em que, definitivamente, vale a pena ser [e querer ser] jornalista.

Nem que seja para retratar o homem comum que mais agrada clientela.
Nem que seja para aprender sobre as abelhas rainha.
Nem que seja para fotografar o milagre do dia.

É aí que se descobre ....

O fato:

Homem é encontrado morto com quatro tiros

O corpo de um homem ainda não identificado foi encontrado por volta das 14h00 de ontem em matagal existente na Estrada dos Índios, bairro do São Bento. A Polícia foi acionada por alguns moradores e quando chegou ao local percebeu que nada poderia ser feito pela vítima.


O rapaz branco, aparentava 30 anos de idade, tinha cerca de 1.70 de altura e possivelmente 70 quilos. O que chamou a atenção dos policiais foram várias tatuagens espalhadas pelo corpo, como teia de aranha, aranha, tribal, coração pontilhado, mulher anja e o desenho de um mago, entre outras.

O cadáver estava caído com três perfurações no lado esquerdo do abdome, um no peito e um no queixo. À princípio não se sabe se a vítima foi morta no local ou apenas desovada ali.


Depois o inusitado:


- Você divulgou o encontro de um cadáver hoje de manhã?

- Sim. Por quê?

- Ligaram avisando que há alguém desaparecido aqui em Mogi. Essa pessoa tem as mesmas características que você descreveu na participação do Radar.

- Como eu entro em contato?

- Deixaram esse número.......


É aí que você descobre em que situações o informar faz sentido.
É aí que você descobre porque escolheu essa profissão.



E por fim a poesia:

Cidadão De Papelão


O cara que catava papelão pediu
Um pingado quente, em maus lençóis, nem voz
Nem terno, nem tampouco ternura

À margem de toda rua, sem identificação, sei não
Um homem de pedra, de pó, de pé no chão
De pé na cova, sem vocação, sem convicção

À margem de toda candura
À margem de toda candura
Cria a dor, cria e atura
Cria a dor, cria e atura
Um cara, um papo, um sopapo, um papelão

O cara que catava papelão pediu
Um pingado quente, em maus lençóis, à sós
Nem farda, sem tampouco fartura
Sem papel, sem assinatura
Se reciclando vai, se vai

À margem de toda candura
À margem de toda candura
Não habita, se habitua
Não habita, se habitua
Homem de pedra, de pó, de pé no chão


[O Teatro Mágico]

Resistência silenciosa [ou não]

Manipulam-se imagens, textos, fatos e dados. Nenhuma mídia está livre da distorção, da tendência partidária e da luta por seus interesses econômicos. Já não é novidade a desconfiança que se deve ter com o que é apresentado em noticiários de TV e rádio, jornais e internet. Ainda assim, é notória a grande influência que o meio provoca à percepção da sociedade, especialmente nas camadas mais excluídas, as quais têm menos opções informativas e, conseqüentemente, menor senso crítico.

Influenciar é errado? É errado buscar condições financeiras para viabilizar o veículo? É errado apresentar na mídia um ponto de vista noticioso diferente do senso comum? Não. Errado é o jornalista gabaritar-se de formador, quando na prática ele muitas vezes exerce o papel de DEformador de opinião. Errado é dizer-se imparcial quando sabemos que a opinião do veículo é expressa desde a escolha da pauta. Errado é declarar-se neutro, ciente de que em toda a matéria a seleção de dados e a estrutura textual estão intimamente ligadas à visão e repertório pessoal do jornalista.

Ora, a imprensa é – no fundo todos sabem – uma empresa, como outra qualquer. Sua matéria-prima é a informação e é através dela que se torna possível a sustentabilidade do meio. Afinal de contas [e que contas], como se manteria uma redação, a circulação das notícias e a estrutura do veículo não fosse a publicidade - seja essa em forma de anúncios ou matérias? Jornais, revistas, programas de rádio e tv precisam sobreviver e a lei de mercado nem sempre é favorável a mídia. Considerando-se isso, são compreensíveis as estratégias com fins lucrativos.

Dar visibilidade àquilo que tem importância razoável; enaltecer os bons resultados e omitir as falhas de empresas e personagens em matérias; noticiar assuntos e acontecimentos de objetivo publicitário e não jornalístico. Tudo isso e várias outras artimanhas - nada que ofenda diretamente a integridade moral dos veículos - são formas estabelecer uma relação amigável e estável com anunciantes e patrocinadores. O que incomoda e preocupa é outro tipo de propaganda, aquela que é feita incoerentemente por jornalistas.

Nesse tipo de publicidade é que acontece o embate ético da profissão. São as denúncias que não por acaso desfavorecem pessoal tal. Os elogios “da população” à autoridade x [que mantém contrato com o veículo]. Comentários telejornalísticos com pouca sustentação informativa e muita palpitação. Quantas vezes jornalistas são induzidos a contar a história de outra maneira? E pior, quantas vezes são complacentes com os pedidos mais ordinários dos chefes de redação? Assim como o veículo, o jornalista precisa sobreviver e a negativa a um pedido de esfera superior não raramente significa sua demissão.

E o que se pode fazer? Dizer não e perder o emprego? Priorizar a lei de mercado e esquecer os princípios éticos? Nada disso. A palavra chave é: resistência. Ao escrever as matérias “encomendadas”, não esquecer-se que sempre existem dois lados, ainda que sua empresa só queira saber de um. Ao ser induzido a comentar determinado assunto [em rádios], usar dados e fatos concretos para sua argumentação e não meramente a opinião exigida. Alertar seu público sobre o que é importante e não pôde ser divulgado. Mostrar um pouco mais dos bastidores...

Apesar de toda a pressão e da rotina absurdamente puxada, é preciso sempre lembrar que o jornalismo pode e deve ser um mobilizador social. Mas para isso, é necessário ganhar espaço e resistir. Resistir ao medo de ser substituído por alguém mais flexível, resistir aos pedidos tendenciosos, resistir o quanto se pode ao monstro da manipulação. Sempre tem alguém disposto a fazer o jogo sujo e, no fim, quem compra gato por lebre é o ouvinte, o telespectador, o leitor, o internauta, o João e a Maria. Por isso, lute para preservar seu lugar. Conquiste espaço e seja aquela pedra no sapato de quem quer matéria fácil. Mostre que ainda é possível aliar informação de qualidade e interesse público – e isso, é claro, sem que seu chefe perceba.

*************
"Eu acho que tenho certeza daquilo que eu quero agora
Daquilo que mando embora
Daquilo que me demora
Eu acho que tenho certeza daquilo que me conforma
Daquilo que quero entender
E não acomodar com o que incomoda
Não ME acomodar com o que incomoda"