quinta-feira, 17 de julho de 2008

Suicídas e Devaneios...

A notícia:

Mulher tenta suicídio
no *Parque Novo Mundo


A dona de casa R.C.A., 26 anos de idade, foi encontrada por familiares descordada e com os pulsos cortados dentro de sua casa, localizada na Rua 83, no Parque Novo Mundo.
Segundo o irmão da vítima, ele a encontrou caída ao solo com os pulsos feridos e vários medicamentos ao seu redor. Ele pediu a ajuda de policiais que realizam patrulhamento nas proximidades e a equipe encaminhou R.C.A. ao Pronto Atendimento. Lá, ela recusou-se a receber auxílio médico e foi liberada.
O boletim de ocorrência foi registrado como tentativa de suicídio.


O devaneio:

Coragem ou fraqueza?

A palavra suicídio parece estar sempre ligada a uma pergunta: por quê?
Problemas psicológicos; miséria; traição; desespero; solidão; dívidas; gravidez indesejada; decepção amorosa; conflitos familiares.
Qual dos motivos sustenta a tentativa de romper com a própria vida?
Enquanto tantos lutam contra enfermidades para continuarem vivos, é estranho falar sobre alguém que viu na morte uma saída.

Nunca tenho uma opinião formada sobre os suicidas.
A verdade é que, em alguns casos, vejo nessas situações um ato de coragem. Já em outras, pré-julgo os protagonistas como fracassados.
Obviamente, não acho que tirar a própria vida seja uma solução e jamais aconselharia alguém a fazer algo do tipo.
Mas, acredito que, quando uma pessoa chega a pensar nesse extremo, ela já eliminou integralmente todas as suas perspectivas para uma vida melhor.
Talvez por falta de conhecimento ou, quem sabe, por excesso dele.

Prefiro imaginar que os suicidas são homens e mulheres inconformados que simplesmente decidiram romper com uma sociedade na qual não se encaixam. Decidiram romper com o mundo podre que não suportavam mais ver. Romper com o sistema sujo e desumano que dita as regras e vitima, das mais diferentes formas possíveis, milhares de pessoas. É grande o peso de todo o ser humano ciente dessa realidade lamentável. O peso é maior ainda quando a sensação de impotência confronta a fé.

O desejo de partir para o tal “mundo melhor” e finalmente “descansar em paz” também pode ter motivado essas pessoas. Mas o que realmente me impressiona nisso tudo é a vontade desenfreada de abrir mão da vida em sociedade e a coragem de dar um rumo ao seu destino, sem ter certeza sobre o que, de fato, acontecerá. Deixar tudo e todos. E mostrar que nada disso tem valor, é só apego às pessoas e a um mundo material.

Por outro lado, aqueles que cometem suicídio por motivos menos ‘complexos’- como os que se matam por perder o emprego ou por serem traídos- deixam a impressão de que foram fracos. Fracassaram em suportar uma dor sentida por tanta gente e tão comum ao ser humano. Parece mesmo que a desistência foi por ignorância, falta de firmeza e descrença. Afinal, se o mundo todo sobrevive com esses problemas, por que essa minoria se julgar incapaz de continuar? É uma pergunta que ficará sem resposta. Só pode responder quem, por decisão própria, já não vive mais entre nós.

*As idéias apresentadas nesse texto são apenas devaneios de quem lida com notícias do gênero. Não nos cabe julgar quem se mata; e nem quem continua vivendo, ainda que sem vida.

A trilha sonora:

O que será – Chico Buarque

O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita

O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os ungüentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite

O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo

Um comentário:

Conrado AtalhoS disse...

É muito difícil compreender, acho que como vc disse, a pessoa já não encontra nenhuma saída e não está apegada a nada, nem amigos nem bens materiais. julgar é difícl, só a própria pessoa tem a vida dela, só ela sofreu daquele jeito, teve a sua educação, não dá pra se colocar no lugar. Pode ser alguns suportam os problemas e superam-os, outros o resolvem tirando o fio da tomada. Assista a um documentário chamado The Bridge.
bjs