sábado, 15 de novembro de 2008

É isso, então?


Sábado, 6h00. Começo o dia com um pensamento que me ocorre uma vez por semana, ou mais, de acordo com o senso de humor e o nível de estress do período.
"Será que é isso mesmo o que eu quero da vida?".
Entre uma tarefa e outra, construo mentalmente como se adequariam a mim as tantas outras milhões de possibilidades profissionais. Reforço algumas poucas certezas. Definitivamente, quero lidar com gente. Não sei me descrever, mais sei que sou avessa aos números, às exatidões e a tudo que se repete cotidianamente, previsivelmente, sem nenhuma gota de frescor, de novidade.

Movimento, gente, novidade, ação! Quero isso e muito mais.

Por enquanto o jornalismo me serve. Afinal, de que outra forma conheceria tantas pessoas, tantas teorias, tantas histórias, e tantos exemplos do que eu não quero, em pleno horário de serviço e sem estar sendo negligente?

Tá. Entedia, às vezes. Mas, vez ou outra, o imprevisto surge desafiando a chata da apatia e, em minutos, traz à tona aquele gosto indescritível. Aquele gosto por estar ali, documentando, relatando, informando a coisa toda. E por alguns milésimos de segundos tudo faz sentido e as dúvidas se esvaem......
Depois ressurgem, mais complexas e latentes que antes....
***
Encontrei esse vídeo num blog, não por acaso, de fotografia.
É o discurso de um cara importante, um alguém que deu certo porque seguiu suas intuições.
Embora use alguns clichês, ele suscita essa questão das escolhas, do destino e da vida.
Quando passou por sua pior fase, profissionalmente, amargou uma demissão e sentiu-se traido.
Com o tempo livre, passou a inventar e criou o que, anos depois, virou um grande patrimônio. Quando ainda na fase ruim, conheceu sua esposa e com ela, na época jovem, partilhou as dificuldades e vitórias. Poderoso, Steve Jobs diz que seguir a intuição foi o maior acerto de sua vida. Foi ela quem tratou de "ligar os pontos" para que ele chegasse até esse futuro promissor.

Vale a pena ver, ele trata também de outros aspectos que transcedem o profissonal:

Continuo nessa estrada, entre dúvidas e notícias.
Veremos o que "os pontos" reservam.
Não tenho pressa.








quarta-feira, 29 de outubro de 2008

"Era só um dia tranqüilo..."





É tão belo quando tudo faz sentido...
ainda que efêmero, ainda que se vá....

O açogueiro que virou notícia.

O acidente que envolveu o carro e uma van escolar. [Nenhuma criança ferida].

O "caçador de abelhas" que resolveu tirar a família ameaçada do caos.


Há dias em que, definitivamente, vale a pena ser [e querer ser] jornalista.

Nem que seja para retratar o homem comum que mais agrada clientela.
Nem que seja para aprender sobre as abelhas rainha.
Nem que seja para fotografar o milagre do dia.

É aí que se descobre ....

O fato:

Homem é encontrado morto com quatro tiros

O corpo de um homem ainda não identificado foi encontrado por volta das 14h00 de ontem em matagal existente na Estrada dos Índios, bairro do São Bento. A Polícia foi acionada por alguns moradores e quando chegou ao local percebeu que nada poderia ser feito pela vítima.


O rapaz branco, aparentava 30 anos de idade, tinha cerca de 1.70 de altura e possivelmente 70 quilos. O que chamou a atenção dos policiais foram várias tatuagens espalhadas pelo corpo, como teia de aranha, aranha, tribal, coração pontilhado, mulher anja e o desenho de um mago, entre outras.

O cadáver estava caído com três perfurações no lado esquerdo do abdome, um no peito e um no queixo. À princípio não se sabe se a vítima foi morta no local ou apenas desovada ali.


Depois o inusitado:


- Você divulgou o encontro de um cadáver hoje de manhã?

- Sim. Por quê?

- Ligaram avisando que há alguém desaparecido aqui em Mogi. Essa pessoa tem as mesmas características que você descreveu na participação do Radar.

- Como eu entro em contato?

- Deixaram esse número.......


É aí que você descobre em que situações o informar faz sentido.
É aí que você descobre porque escolheu essa profissão.



E por fim a poesia:

Cidadão De Papelão


O cara que catava papelão pediu
Um pingado quente, em maus lençóis, nem voz
Nem terno, nem tampouco ternura

À margem de toda rua, sem identificação, sei não
Um homem de pedra, de pó, de pé no chão
De pé na cova, sem vocação, sem convicção

À margem de toda candura
À margem de toda candura
Cria a dor, cria e atura
Cria a dor, cria e atura
Um cara, um papo, um sopapo, um papelão

O cara que catava papelão pediu
Um pingado quente, em maus lençóis, à sós
Nem farda, sem tampouco fartura
Sem papel, sem assinatura
Se reciclando vai, se vai

À margem de toda candura
À margem de toda candura
Não habita, se habitua
Não habita, se habitua
Homem de pedra, de pó, de pé no chão


[O Teatro Mágico]

Resistência silenciosa [ou não]

Manipulam-se imagens, textos, fatos e dados. Nenhuma mídia está livre da distorção, da tendência partidária e da luta por seus interesses econômicos. Já não é novidade a desconfiança que se deve ter com o que é apresentado em noticiários de TV e rádio, jornais e internet. Ainda assim, é notória a grande influência que o meio provoca à percepção da sociedade, especialmente nas camadas mais excluídas, as quais têm menos opções informativas e, conseqüentemente, menor senso crítico.

Influenciar é errado? É errado buscar condições financeiras para viabilizar o veículo? É errado apresentar na mídia um ponto de vista noticioso diferente do senso comum? Não. Errado é o jornalista gabaritar-se de formador, quando na prática ele muitas vezes exerce o papel de DEformador de opinião. Errado é dizer-se imparcial quando sabemos que a opinião do veículo é expressa desde a escolha da pauta. Errado é declarar-se neutro, ciente de que em toda a matéria a seleção de dados e a estrutura textual estão intimamente ligadas à visão e repertório pessoal do jornalista.

Ora, a imprensa é – no fundo todos sabem – uma empresa, como outra qualquer. Sua matéria-prima é a informação e é através dela que se torna possível a sustentabilidade do meio. Afinal de contas [e que contas], como se manteria uma redação, a circulação das notícias e a estrutura do veículo não fosse a publicidade - seja essa em forma de anúncios ou matérias? Jornais, revistas, programas de rádio e tv precisam sobreviver e a lei de mercado nem sempre é favorável a mídia. Considerando-se isso, são compreensíveis as estratégias com fins lucrativos.

Dar visibilidade àquilo que tem importância razoável; enaltecer os bons resultados e omitir as falhas de empresas e personagens em matérias; noticiar assuntos e acontecimentos de objetivo publicitário e não jornalístico. Tudo isso e várias outras artimanhas - nada que ofenda diretamente a integridade moral dos veículos - são formas estabelecer uma relação amigável e estável com anunciantes e patrocinadores. O que incomoda e preocupa é outro tipo de propaganda, aquela que é feita incoerentemente por jornalistas.

Nesse tipo de publicidade é que acontece o embate ético da profissão. São as denúncias que não por acaso desfavorecem pessoal tal. Os elogios “da população” à autoridade x [que mantém contrato com o veículo]. Comentários telejornalísticos com pouca sustentação informativa e muita palpitação. Quantas vezes jornalistas são induzidos a contar a história de outra maneira? E pior, quantas vezes são complacentes com os pedidos mais ordinários dos chefes de redação? Assim como o veículo, o jornalista precisa sobreviver e a negativa a um pedido de esfera superior não raramente significa sua demissão.

E o que se pode fazer? Dizer não e perder o emprego? Priorizar a lei de mercado e esquecer os princípios éticos? Nada disso. A palavra chave é: resistência. Ao escrever as matérias “encomendadas”, não esquecer-se que sempre existem dois lados, ainda que sua empresa só queira saber de um. Ao ser induzido a comentar determinado assunto [em rádios], usar dados e fatos concretos para sua argumentação e não meramente a opinião exigida. Alertar seu público sobre o que é importante e não pôde ser divulgado. Mostrar um pouco mais dos bastidores...

Apesar de toda a pressão e da rotina absurdamente puxada, é preciso sempre lembrar que o jornalismo pode e deve ser um mobilizador social. Mas para isso, é necessário ganhar espaço e resistir. Resistir ao medo de ser substituído por alguém mais flexível, resistir aos pedidos tendenciosos, resistir o quanto se pode ao monstro da manipulação. Sempre tem alguém disposto a fazer o jogo sujo e, no fim, quem compra gato por lebre é o ouvinte, o telespectador, o leitor, o internauta, o João e a Maria. Por isso, lute para preservar seu lugar. Conquiste espaço e seja aquela pedra no sapato de quem quer matéria fácil. Mostre que ainda é possível aliar informação de qualidade e interesse público – e isso, é claro, sem que seu chefe perceba.

*************
"Eu acho que tenho certeza daquilo que eu quero agora
Daquilo que mando embora
Daquilo que me demora
Eu acho que tenho certeza daquilo que me conforma
Daquilo que quero entender
E não acomodar com o que incomoda
Não ME acomodar com o que incomoda"

domingo, 20 de julho de 2008

Enquête popular

Entrevistar pessoas anônimas, assim como autoridades, dá trabalho. Primeiro porque a abordagem inicial é sempre difícil. Muitas pessoas ficam intimidades com o gravador, ou dão a entrevista, mas não aceitam tirar foto. Pior ainda é quando não estão informadas a respeito do assunto sobre o qual são questionadas. É uma tarefa difícil, mas prazerosa. Não raras vezes, o povo, com toda sua simplicidade, mostra que a sabedoria popular ainda é tão salutar quanto o conhecimento de especialistas.

Enquête popular é sempre um desafio e, ao final, percebo que grandes transtornos geram grandes aprendizados. O último deles foi que jornalistas mulheres nem sempre podem ir às ruas sozinhas. Ter uma segunda pessoa auxiliando é necessário, de acordo com o tema da pauta. Entrevistar homens em bares, sobre a Lei Seca, por exemplo, é coisa que não se deve fazer sozinha. Ter ousadia é preciso, contudo, segurança é ainda mais fundamental. O que alivia é o resultado final: ninguém sabe os apuros que você passou para conseguir a matéria, mas, quando ela finalmente dá certo, o reconhecimento coroa o esforço.

Resultado da última enquête:

Lei Seca tem alto índice de
aprovação entre arujaenses

Legenda: Márcio Sampaio, da Chopperia Sem Parar: houve uma queda de 20% no movimento dos últimos finais de semana

Sancionada há pouco menos de um mês pelo presidente Luis Inácio Lula da Silva, a Lei Seca já surtiu efeitos significativos na cidade de São Paulo. Embora o município de Arujá não tenha recebido ainda o bafômetro (aparelho utilizado para medir o teor alcoólico) do Governo do Estado, os resultados noticiados pela grande imprensa parecem ter repercutido na opinião de muitos arujaenses que, em pesquisa realizada essa semana pelo Jornal, mostraram-se favoráveis à nova lei.

A maioria dos entrevistados aprova a medida e sustenta sua opinião com base na redução de 57% no número de mortes por acidentes de trânsito na Capital, dado que foi oficialmente divulgado pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo. Em contraponto, a rigidez da Lei Seca e a queda de movimento em bares e similares foram as principais justificativas apresentadas por aqueles que disseram-se, ideologicamente, contra a nova regra.

A diminuição na venda de bebidas alcoólicas afeta não somente os estabelecimentos de São Paulo, onde os comerciantes começam a criar estratégias para manter sua clientela. Segundo Márcio Sampaio, gerente da popular chopperia Sem Parar, uma queda de 20% foi registrada no movimento dos últimos finais de semana no local. Para ele, a Lei Seca e o tempo frio são os fatores responsáveis por essa nova estatística.

“Como gerente, sinto que os bares e comércios que vendem bebida alcoólica estão sendo bastante prejudicados. A lei está bem rígida e ninguém quer brincar e correr o risco de ser multado. O cliente que vem e gosta de tomar bebida alcoólica não fica mais o tempo que ele ficaria normalmente, ou seja, mesmo que ele substitua a cerveja por um suco, o consumo diminui”, explica Márcio, que há um ano trabalha na chopperia.

Questionado sobre sua opinião em relação à proposta da Lei Seca, o gerente mostrou-se dividido. “Com a visão de quem sobrevive da venda de bebidas, posso dizer que a medida deveria ser mais tolerante porque ela está severa demais e irá prejudicar o comércio. Mas, como cidadão, acho que é preciso prevenir acidentes. Andar com mais tranqüilidade no trânsito é uma melhoria importante”, ponderou.

Com 25 anos de atuação no município, o mecânico ‘Zezinho’ já foi responsável pelo conserto de inúmeros carros provenientes de acidentes de trânsito ocasionados por motoristas embriagados. Ainda que o rigor da nova lei diminua o número de automóveis a serem consertados em sua mecânica, ele diz que as ruas tendem a ficar mais seguras e, por isso, é favorável à medida. “Tem que existir essa regra mais severa. Com certeza eu vou ter menos trabalho, mas a segurança vai aumentar”, enfatizou.

Cristiano Carbonari mora em Arujá e trabalha em Guarulhos. Ele acredita que todo trabalhador tem o direito de, ao final do dia, tomar pelo menos uma taça de vinho ou uma dose de vodka para relaxar, contanto que não perturbe ninguém. Cristiano não é favorável à Lei Seca, mas se diz contra as pessoas que dirigem embriagadas.

“Eu sou contra o cara que fica bêbado e vai embora dirigindo. A lei diminuí o número de acidentes porque intimida as pessoas. Você a proíbe, não a convence de que é errado. É mais eficaz pensar em uma forma de educar para que ela beba menos e dirija com cuidado”, argumentou, enquanto tomava o aperitivo pós fim de expediente. “Eu bebo, mas moro ao lado. Não preciso de carro para chegar em casa”, justificou Cristiano.

De outro lado, o ‘velho de guerra’ Estelito, conhecido produtor de eventos, acompanha com alivio os resultados da nova medida. Ele relata que, há algum tempo, também passou da conta e viu de perto o perigo que o excesso de álcool pode causar quando começa a afetar os sentidos das pessoas.

“Já morreu muita gente no caminho de Arujá para Mogi das Cruzes por causa da bebida. Então a regra vai dar uma boa regulada nesse aspecto. Antes a lei seca controlando a ingestão de bebidas, do que outra lei proibindo o comércio de vender seus produtos. Agora é assim, bebeu, tem que assumir a responsabilidade”, salientou. Com ares de inconseqüente assumido, o produtor completa “o pessoal está bebendo muito. Eu, inclusive, me policiei um pouco mais”, concluiu.

Box
Saiba mais sobre a Lei Seca

A lei seca foi sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no dia 19 de junho com o intuito de agir com maior rigor contra o motorista que ingerir bebidas alcoólicas. O texto da lei, aprovado pela Câmara no início de junho, passa a considerar crime conduzir veículos com qualquer teor de álcool no organismo.

A punição para quem não cumprir a lei será considerada gravíssima e prevê suspensão da carteira de habilitação por um ano, além de multa de R$ 955 e retenção do veículo.

A suspensão por um ano do direito de dirigir é feita a partir de 0,1 mg de álcool por litro de ar expelido no exame do bafômetro (ou 2 dg de álcool por litro de sangue). Acima de 0,3 mg de álcool no ar expelido (ou 6 dg por litro de sangue), a punição inclui também a detenção do motorista (de seis meses a três anos).

Com a nova lei, o homicídio praticado por motorista deixa de ser culposo e passa a ser doloso (com intenção). A lei retira do Código de Trânsito Brasileiro o agravante para a pena de homicídio culposo (sem intenção de matar) por entender que dirigir sob efeito do álcool é crime.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Suicídas e Devaneios...

A notícia:

Mulher tenta suicídio
no *Parque Novo Mundo


A dona de casa R.C.A., 26 anos de idade, foi encontrada por familiares descordada e com os pulsos cortados dentro de sua casa, localizada na Rua 83, no Parque Novo Mundo.
Segundo o irmão da vítima, ele a encontrou caída ao solo com os pulsos feridos e vários medicamentos ao seu redor. Ele pediu a ajuda de policiais que realizam patrulhamento nas proximidades e a equipe encaminhou R.C.A. ao Pronto Atendimento. Lá, ela recusou-se a receber auxílio médico e foi liberada.
O boletim de ocorrência foi registrado como tentativa de suicídio.


O devaneio:

Coragem ou fraqueza?

A palavra suicídio parece estar sempre ligada a uma pergunta: por quê?
Problemas psicológicos; miséria; traição; desespero; solidão; dívidas; gravidez indesejada; decepção amorosa; conflitos familiares.
Qual dos motivos sustenta a tentativa de romper com a própria vida?
Enquanto tantos lutam contra enfermidades para continuarem vivos, é estranho falar sobre alguém que viu na morte uma saída.

Nunca tenho uma opinião formada sobre os suicidas.
A verdade é que, em alguns casos, vejo nessas situações um ato de coragem. Já em outras, pré-julgo os protagonistas como fracassados.
Obviamente, não acho que tirar a própria vida seja uma solução e jamais aconselharia alguém a fazer algo do tipo.
Mas, acredito que, quando uma pessoa chega a pensar nesse extremo, ela já eliminou integralmente todas as suas perspectivas para uma vida melhor.
Talvez por falta de conhecimento ou, quem sabe, por excesso dele.

Prefiro imaginar que os suicidas são homens e mulheres inconformados que simplesmente decidiram romper com uma sociedade na qual não se encaixam. Decidiram romper com o mundo podre que não suportavam mais ver. Romper com o sistema sujo e desumano que dita as regras e vitima, das mais diferentes formas possíveis, milhares de pessoas. É grande o peso de todo o ser humano ciente dessa realidade lamentável. O peso é maior ainda quando a sensação de impotência confronta a fé.

O desejo de partir para o tal “mundo melhor” e finalmente “descansar em paz” também pode ter motivado essas pessoas. Mas o que realmente me impressiona nisso tudo é a vontade desenfreada de abrir mão da vida em sociedade e a coragem de dar um rumo ao seu destino, sem ter certeza sobre o que, de fato, acontecerá. Deixar tudo e todos. E mostrar que nada disso tem valor, é só apego às pessoas e a um mundo material.

Por outro lado, aqueles que cometem suicídio por motivos menos ‘complexos’- como os que se matam por perder o emprego ou por serem traídos- deixam a impressão de que foram fracos. Fracassaram em suportar uma dor sentida por tanta gente e tão comum ao ser humano. Parece mesmo que a desistência foi por ignorância, falta de firmeza e descrença. Afinal, se o mundo todo sobrevive com esses problemas, por que essa minoria se julgar incapaz de continuar? É uma pergunta que ficará sem resposta. Só pode responder quem, por decisão própria, já não vive mais entre nós.

*As idéias apresentadas nesse texto são apenas devaneios de quem lida com notícias do gênero. Não nos cabe julgar quem se mata; e nem quem continua vivendo, ainda que sem vida.

A trilha sonora:

O que será – Chico Buarque

O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita

O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os ungüentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite

O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Pautas e autoridades



“Bom dia

Hoje o senador Mercante visitará a região.
Você deverá questioná-lo, primordialmente, sobre o assunto ‘x’

Obs.: Será a matéria de destaque amanhã


Att: chefe de redação”


Autoridades de reconhecimento nacional costumam ser pouco acessíveis. Andam rodeadas por uma multidão; estão sempre com muita pressa: se dizem atrasadas para um próximo compromisso. Além disso, mostram que estão ‘na defensiva’ quando abordados pela imprensa e, às vezes, chegam a responder grosseiramente perguntas consideradas desagradáveis.

Entre povo, personalidades e assessores, jornalistas arranjam espaço e tentam cumprir seu trabalho, ainda que para isso precisem ser pisoteados e, em casos extremos, até destratados por tietes e seguranças.


Mesmo lembrando os traumas com personalidades desse tipo, o e-mail acima - enviado pelo chefe de redação - não causou a ansiedade e o medo que normalmente surgem com pautas difíceis. Talvez, inconscientemente, eu tenha imaginado que entrevistar o senador não seria tão ruim quanto o governador de São Paulo, José Serra.

Em visita à região, o governador deixou com respostas medíocres até os jornalistas mais experientes (imagine os pobres estagiários). Quando finalmente consegui me aproximar dele, fui repreendida pela assessora de imprensa: “ele já está atrasado. Não há tempo para mais perguntas”. Isso seria suficiente para me fazer desistir, caso não estivesse sob minha responsabilidade a matéria para dois veículos de comunicação.

Todos começaram a se movimentar acompanhando o passo de Serra, que já havia virado as costas para caminhar em direção ao seu helicóptero. Numa atitude impulsiva e ousada, puxei levemente a gola do governador (estava atrás dele). Com o coração disparado, aproveitei o olhar curioso que ele lançou em minha direção e pedi: só UMA pergunta, por favor. Todos os flashes e gravadores a postos novamente. Trêmula e bastante intimidada, finalmente fiz a pergunta que tanto me atormentava. Era sobre segurança pública.

-Quê? Hum....Bom, não sei. É melhor perguntar isso ao Marzagão [secretário de segurança].
Depois da brilhante resposta, virou-se e foi embora. Eu fiquei. Fiquei vermelha, desnorteada e me sentindo um lixo como profissional. Recebi todos os olhares de solidariedade dos colegas que perceberam o esforço e minha insatisfação diante da indiferença demonstrada por Serra. Apesar daquilo que, a meu ver, foi um constrangimento, consegui a sonora, fiz as matérias.......... Missão cumprida, apesar dos pesares.

E o Mercadante? Felizmente, minha intuição estava certa. Também não foi fácil a busca por mais uma ‘exclusiva’ - coletivas não têm graça e, além disso, a sonora não fica com a mesma qualidade. Por coincidência, foi quase a mesma metodologia descrita nas linhas anteriores. Após muita conversa com os militantes do PT, autoridades, simpatizantes e curiosos, o senador despediu-se e parou para tirar uma última foto com um fã. Enquanto eles se ajeitavam para a pose, fiz mímica e pedi: só UMA pergunta. Mesmo com o alerta de “ele não tem mais tempo” da assessoria, Mercadante mostrou-se receptivo. Foram três perguntas para três respostas bem articuladas. Missão cumprida! E dessa vez, sem passar vergonha e sem‘pesares’ no final ....

Detalhe, quando conversava com militantes petistas, Mercadante deixou o entusiasmo aflorar em suas palavras. Engraçado que uma piada feita por ele me deixou, desnecessariamente, encabulada. “Tucano tem bico grande, mas voa curto e ‘caga’ mole”. Minha cara de desaprovação foi tão notória que o próprio senador viu e emendou: com o perdão da palavra, é claro.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Mulheres brigam: uma leva tiro e a outra é presa

A notícia
Uma tentativa de assassinato foi registrada no último sábado na Estrada dos Canjicas, localizada no bairro do São Domingos. A auxiliar de escritório *Amanda Pinto de Morais, de 31 anos, levou um tiro nas costas e, até ontem, permanecia internada com o risco de ficar paraplégica.

De acordo com o boletim de ocorrência, Amanda foi acompanhada por outra mulher até uma chácara da Estrada das Canjicas para conversar com seu ex-marido, o qual atualmente convive com *Silvia Rodrigues da Silva, de 21 anos. *Fernando Martinelli não estava em casa e, após um desentendimento, começou uma discussão entre as duas mulheres.

No calor da briga, Silvia Rodrigues sacou um revólver Tauros calibre 38. Quando Amanda e sua acompanhante tentaram fugir, Cíntia disparou. O tiro atingiu Amanda nas costas. Ela foi socorrida por populares e levada até o hospital da Ama.

Em contato com o médico que atendeu a vítima, policiais obtiveram a informação de que ela apresentava orifício de entrada na região lombar direita e déficit sensitivo e motor em membros inferiores, o que resulta em uma suspeita de paraplegia.

No local dos fatos, policiais conversaram com Silvia e uma testemunha, as quais relataram o acontecido. Posteriormente, Fernando chegou e autorizou uma vistoria nas dependências da chácara. Duas espingardas encontradas em um galpão, assim como o revólver Tauros usado para atirar em Amanda, foram apreendidos.

Fernando, Silvia e as armas foram encaminhados à Delegacia de Polícia. Silvia Rodrigues recebeu voz de prisão em flagrante e o boletim foi registrado como tentativa de homicídio

(*Os nomes reais foram preservados)


Os devaneios

Segunda-feira de manhã é dia de ‘visitar’ a Companhia de Polícia. O final de semana sempre rende uma notícia policial, seja ela acidente de trânsito, tráfico de entorpecente, brigas de rua ou homicídio (mais raro e impactante).

- Mas teve tanta coisa ao mesmo tempo nesse fim de semana: concurso de fanfarras, convenção, reunião, comemoração! Acho que não aconteceu nada grave....... Bom, por ‘desencargo de consciência’, vou dar uma olhada nos boletins.

É. Eu estava errada. Infelizmente, tem dias em que TUDO acontece ao mesmo tempo. Jornalista às vezes nem parece gente. É uma espécie de grilo que precisa dar seus pulos rápidos, os quais exigem pernas flexíveis e desacomodadas. Por que? Porque amanhã todo mundo quer saber o TUDO que aconteceu, principalmente as tragédias. Não sabe o que houve? Pule!

Inicialmente, algumas pessoas disseram que a amante atirou na esposa. No boletim, isso não fica claro. “Ele vivia maritalmente com Silvia”, está escrito lá. Que seja... O fato é que uma mulher poderá ficar sem os movimentos das pernas.

Sinceramente, é o tipo de notícia que realmente me entristece. É daquelas que não deveria ter acontecido. Se o marido assumiu a amante, por que ir atrás dele? É...é fácil julgar. Ninguém sabe o que motivou a mulher a procurar ele. Mas discutir com a rival?

Discutir com a amante 10 anos mais nova não ia trazer o marido de volta. Talvez o bom senso tivesse evitado a tragédia. Um pouco de orgulho, ou amor próprio. E, afinal, quem escolheu foi ELE. Elas? Uma permanece internada e a outra foi presa.

Trilha sonora

Depois de anotar as informações, fiquei com uma música na cabeça me fazendo lembrar esse caso. “Também morre quem atira”.


[...] Hey joe
assim você não curte o brilho
intenso da manhã
acorda com tiro dorme com tiro

hey joe
o que o teu filho vai pensar
quando a fumaça baixar

fumaça de fumo
fogo de revólver
e é assim que eu faço, eu faço a minha história

meu irmão, aqui estou por causa dele
e vou te dizer
talvez eu não tenha vida
mas é assim que vai ser
armamento pesado
o corpo é fechado
eu quero é mais ver
mais vai ser difícil me deter

hey joe
muitos castelos já cairam e você tá na mira

Também morre quem atira... [O Rappa]


Coisa do interior? Sim... e não é que é 'bão'?





-Trabalhar no domingo? Ahhhh não! Meu dominguinho de folga é sagrado!

Fim de semana agitado no 'interior' é isso: trabalho e mais trabalho. Mas tem evento que dá gosto de narrar. E foi mais ou menos assim:

"Com aplausos entusiasmados, o público arujaense recepcionou as 27 corporações participantes do 19º Concurso de Fanfarras e Bandas Cidade-Natureza.
Apesar do frio e da garoa, era grande a concentração de pessoas que acompanhavam as apresentações, encerradas por volta das 23h00" .


Concurso de fanfarras é coisa de cidade do interior. Mas tenho certeza que iniciativas culturais como essa refletem na qualidade de vida das pessoas e não deveriam ser 'exclusividade' dos caipiras.
É uma mostra de que nem todos os jovens querem apenas "beber, cair e levantar". Muitos extravasam sua energia ensaiando horas e horas com instrumentos difíceis e pesadíssimos. Depois de muito trabalho duro, é com sorriso no rosto que desfilam impactando com suas roupas 'espalhafatosas' e seu som encantador.
Dessa vez não são as autoridades, os famosos e nem os 'importantes' os donos da vez. É hora de mostrar o povo. Povo que rala, faz e acontece, mas não perde a educação. O resultado? Um espetáculo de sonoridade e harmonia. Brilho nos olhos, bocas abertas e um pensamento: a arte transforma. Transforma quem a faz e transforma quem a vê.

O dia todo no frio e na garoa tirando fotos...
E quer saber? Foi é bom!

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Justiça.... a minha ou a sua? (parte III)


Para toda a família da garota, ali representada por três pessoas, as palavras proferidas pela juíza soaram como uma expressiva e libertadora canção de vitória. Aquele que fora responsável pela morte da jovem Daniela deverá, de acordo com a sentença, responder por seus atos cumprindo 17 anos de reclusão na cadeia. Naquela noite o julgamento, que havia começado às 9 horas da manhã, finalmente encerrava-se com o desfecho do caso que vitimou não apenas a adolescente assassinada, mas as famílias e amigos de todos os envolvidos no crime.

Tomada por um sentimento de solidariedade e alívio diante do final daquele episódio delicado, cheguei até os familiares da vítima - com os quais já havia conversado durante o dia- e só fui capaz de fazer uma única pergunta, face a toda emoção que aquele momento representava. “A sentença foi justa para vocês?”, questionei, enquanto apertava a mão da irmã mais nova de Daniela, morta pelo namorado aos 17 anos, grávida de cinco meses. “Sei bem que nada disso trará minha irmã de volta. Mas independente dele ter disparado intencionalmente ou não, a justiça tem que ser feita. Acredito que sim, essa é uma forma justa dele pagar pelo que fez”, respondeu, trêmula, a caçula da família.

Seus pais, visivelmente emocionados e timidamente satisfeitos com a sentença, disseram que preferiam preservar seus nomes, assim como o da filha mais nova. Lembrando a pergunta que eu havia feito segundos antes, direcionada a eles todos, o pai de Daniela humildemente respondeu: “Só podemos tentar ficar em paz, mesmo com a triste ausência dela, e acreditar que a justiça está sendo feita”. Com um leve movimento de afirmação, ao balançar a cabeça, olhei para cada um daqueles rostos tentando imaginar se a dor que se fazia tão presente em suas vidas poderia ser amenizada através da prisão de uma pessoa. Sem resposta, e receosa de ter me mostrado inconveniente, deixei os familiares da vítima.

Justiça para aqueles, tragédia para esses... (parte II)

O réu, que durante todo o julgamento permanecera de costas para o público, inclusive para sua família, finalmente pôde encarar de frente todo aquele universo de sensações e questionamentos. Com um olhar cabisbaixo e complacente, indicando compreensão com o seu destino ali traçado, ele parecia buscar sabedoria para transmitir calma aos familiares, aparentemente inconformados com o seu futuro encarcerado.

Mesmo ciente de todo os detalhes daquela tragédia, protagonizada por uma pessoa de 18 anos problemática e desprovida de responsabilidade, o semblante do réu causou-me espanto por lembrar o de um adolescente. Enquanto ele mantinha-se de costas, a imagem que eu fazia do autor do assassinato era a de um homem com uma expressão que revelava sua maldade. Não que eu imaginasse um ser assustador, mas sim uma pessoa com traços de irracionalidade. E, de repente, me senti triste e surpresa ao vê-lo. Aquele homem de 24 anos, com uma feição tão ingênua e juvenil, estava fadado a passar longos anos na prisão.

O desespero de minhas idéias certamente foi o mesmo que motivou o choro e o lamento de toda a família. Por mais que não tivesse intimidade alguma com aquela pessoa, e nem se quer soubesse nada sobre sua vida antes daquele dia incomum, senti um aperto forte ao visualizar o passar dos anos e tudo o que sucederia na vida daquele garoto. Mesmo sendo ele culpado e ainda que a lei estivesse sendo friamente cumprida, era deprimente a constatação de que em 17 anos o jovem seria mais um formado na faculdade do crime. O que mais haveria de aprender na cadeia? Como conseguiria evoluir para o bem estando sujeito a tantas situações constrangedoras e ao relacionamento com pessoas ruins?

O fato é que, enquanto a família da vítima parecia estar pronta para sair de um pesadelo, a família do réu parecia estar prestes a entrar em um. Ainda que soubessem que ele não sairia dali solto, os parentes do jovem expressavam em suas palavras e no choro incontido toda a dor que sentiam naquele instante, a ser eternizado em suas vidas por pelo menos 17 anos.

Imaginei uma possível aproximação, mas julguei definitivamente covarde qualquer tentativa de perguntar algo àquelas pessoas. Os abraços sufocantes, as mãos trêmulas e os olhos inundados respondiam por si só ...e não havia palavra alguma que expressasse melhor o pesar daquela gente.

Forte para quem vive, forte para quem vê... (parte I)

A falta de matérias daquele dia fatigante começava a gerar ansiedade, já que nenhuma pauta tinha dado certo naquela manhã. A concentração de viaturas e pessoas chamou atenção quando passei pelo local onde começava aquele que, algumas horas depois, seria o principal assunto da cidade: o julgamento de Daniel Farias, acusado de assassinar com um tiro na testa Daniela Freitas, aos 17 anos e grávida de cinco meses.

Os julgamentos são naturalmente emocionantes no final e entediantes no começo. Antes da apresentação da promotoria, do advogado de defesa, da réplica, tréplica e sentença, muitas informações são minuciosamente lidas. As testemunhas são ouvidas, questionadas e há todo um procedimento padrão, bastante formal e demorado. Contudo, o último julgamento no qual estive tornou-se um grande aprendizado e despertou em mim a vontade de presenciar mais esse júri.

Juíza, promotor, advogado, réu, testemunhas, júri e público. Todos estrategicamente posicionados para o ato, como num cenário de filme. Pouco a pouco os dados de todo o crime são apresentados com riqueza de detalhes e possibilitam a construção visual daquele infeliz acontecimento, que culminou com a morte de uma jovem e seu filho, ainda acalentado no ventre materno.

Em 12 de junho de 2002, Daniela saí de sua casa para passar alguns dias com o namorado. No dia seguinte, ela, suas cunhadas e Daniel assistiam a um jogo da Copa do Mundo quando, num momento de euforia e estupidez, o jovem pega sua arma e dispara dentro de casa em comemoração ao gol da seleção brasileira. A bala atinge na testa aquela que durante 11 meses havia sido sua companheira. Intencional ou não, o tiro tinha um autor e após seis anos ele estava diante da justiça para ser julgado.

“A voz do povo é a voz de Deus, portanto esse júri popular será responsável por prenunciar a vontade divina”, declarou, convicto, o advogado de defesa. Antes que a juíza começasse a se pronunciar, o som estrondoso e inconveniente de um celular ameaçou a paz do recinto. Sim, mais uma vez a aspirante a jornalista pagava um de seus clássicos micos na humilde tentativa de exercer a profissão. O celular era meu e fui obrigada a me retirar sob os olhares de condenação e profunda irritação de todos os presentes.

Passado o momento de embaraço, voltei na tentativa de que meus passos leves e concisos, assim como minha figura pequena e tímida, chegassem novamente ao assento sem serem percebidos. Felizmente, só fui notada novamente quando me aproximei da família da vítima, que fez a gentileza de contextualizar toda a história e fornecer mais informações para a matéria. Ao partir para o almoço, a irmã de Daniela, num gesto de empatia, perguntou com seus olhos sofridos “você volta, não é?”. Sim, daqui uma hora eu volto, respondi, sensibilizada pelo apreço que em tão pouco tempo despertei na garota.

Ao retornar, fiquei mais atenta às expressões corporais de ambas as famílias e também dos advogados e promotor, que bravamente tentavam convencer o júri de suas teses. Teses essas que foram amplamente discutidas, rebatidas e analisadas, enquanto as mãos impacientes, olhares apreensivos e bocas entreabertas do público revelavam toda a tensão do momento.

Mais que um simples ato judicial, aquele era um evento do qual muitas pessoas sairiam transformadas. O réu teria um destino e as famílias um novo sentimento, de justiça ou inconformismo, mas aliviador pela certeza de que ali fora anunciado, finalmente, um desfecho. Desfecho forte para quem vive, forte para quem vê. Depois da sentença e das observações, deixei o cenário. Desta vez, diferente da forma como entrei.

quinta-feira, 13 de março de 2008

Maria, seus irmãos e o resto do mundo


Quando pequena, Maria costumava brincar de tudo com seus irmãos, inclusive de corrida de carrinhos, de jogar bola ou de lutinhas.
No ápice das brincadeiras a mãe chamava:
- Maria! Vem me ajudar na cozinha!
Mesmo sem entender direito o porquê dos seus irmãos poderem continuar brincando e ela não, Maria obedecia. Claro que enxugava a louça do almoço e contribuía com outros afazeres a contra gosto, já que era muito mais divertido ficar brincando.

A garota sabia que havia uma diferença evidente entre ela e os irmãos, mas as privações e insinuações de que ela deveria se portar de uma forma completamente regrada, enquanto eles não precisavam em nada se preocupar, começaram a fomentar uma certa revolta na cabeça da pequena.

- Fale baixo, sente-se de pernas fechadas, penteie direito o cabelo, fique longe dos moleques, não responda a ninguém. Ajude a arrumar a casa, aprenda a fazer arroz e seja uma boa aluna.
A orientação sobre ser bom aluno também valia para seus irmãos, mas obviamente era muito mais constrangedor para uma mãe ser chamada na escola em razão do mau comportamento da filha do que pela bagunça dos filhos.
Se os meninos aparecessem de graça com alguma garota é porque eram espertos. Porém... “– Desrespeito! Não pode nem dar ouvidos a este tipo de conversinha”. Esse era o conselho dado a Maria, caso algum garoto se aproximasse.

- Por que eu não posso ficar na rua brincando? Qual o problema com a minha roupa? Por que meus assuntos são limitados e os deles não? Por que eu preciso passar batom para ficar mais bonita? Por que preciso dar tanta satisfação? Por que me tratam tão diferente?
Essas e tantas outras indagações obtiveram respostas. Respostas essas que só comprovavam o quanto era tudo muito mais simples para os homens e complicado para as mulheres.

Durante as idas ao salão de cabeleireiro com a mãe, as conversas chegavam a enjoar a pequena.
- Preciso ir logo para fazer a janta; meu marido fez isso e aquilo outro; a gravidez acabou com meu corpo; vida de mulher casada é um terror; estica mais meu cabelo que é para a escova durar; não pinta minha unha de vermelho porque o João não gosta; vou fazer simpatia para ele não procurar a outra.

Ah! Mas que vidinha mais injusta essa... como elas se conformam com isso? Será que nenhuma mulher tem vontade própria?
Mariazinha passou a perceber que a limitação de idéias e a trajetória previsível de tantas mulheres eram piores do que o machismo impregnado na sociedade.
As coisas devem mesmo funcionar assim ou elas é quem se submetem demais?

As barreiras morais sempre foram bem mais rígidas para a ala feminina.
Talvez isso seja até positivo, já que contribuí para a formação de uma pessoa mais reservada e menos exposta à tantas situações indesejáveis que assolam a vida de inúmeras garotas, como a gravidez precoce e indesejada; o relacionamento sem respeito ocasionado pela falta de critérios para escolher um parceiro; a dificuldade para conseguir um emprego em razão da ausência de formação profissional e a própria desvalorização da mulher em si, já que nem todas as famílias possuem exemplos de mulheres que têm uma vida digna.

Assim como Maria, milhares de mulheres sabem e sentem o quanto é trabalhoso passar por cima de todos os estigmas e fragmentos de uma sociedade moldada em leis machistas. Assim como ela, muitas percebem como é duplamente difícil para a mulher percorrer com sucesso todas as etapas para uma vida feliz pessoal e profissionalmente.

Hoje, o Dia Internacional da Mulher coroa a hipocrisia de uma sociedade que é omissa diante do adultério masculino e ultra precipitada ao condenar os relacionamentos femininos; uma sociedade que prega a valorização da mulher, mas coloca em evidência àquelas que tem como único atributo seu corpo; uma sociedade onde os homens dizem respeitar a intelectualidade da mulher e esquecem da inteligência de suas esposas procurando outras na primeira esquina; uma sociedade que exalta a beleza interior, mas impõe padrões estéticos surreais principalmente para as mulheres e, mesmo as que tentam disso fugir, correm graves riscos de ficar com a auto-estima baixa, já que as outras têm mais atenção.

Ser mulher, de verdade, não é apenas usar o sanitário sentada, vestir saias e vestidos, salto alto e maquiagem. É ser tudo que um homem pode ser e estar cheirosa ao final do dia. É ter tantas obrigações quanto ele e ainda se preocupar com as notas do filho na escola. É ignorar que ele está cada vez mais relapso e mesmo assim se arrumar para o próximo encontro. É sentir a dor do parto e fazer daquele ser que nasce, em meio a tanta a dor, a verdadeira razão de sua vida. É ter a petulância de enxergar tudo isso e não ser uma pessimista. É ter coragem de se assumir mulher, no sentido mais amplo da palavra.


Ele diz “viva ao dia da mulher!”. E xinga o outro de filho da put_ assim que puder.
“As mulheres são verdadeiros anjos!” e quando ela estiver toda enrugada troca a de 50 por duas de 25 anos.
“Viva ao dia da mulher!” e a secretária faz o serviço da esposa quando ela não puder.
“A mulher representa o amor!” e em casa aumenta o tom de voz como se estivesse falando com um ser inferior.
“Viva ao dia da mulher!” e se ela está sozinha aos 30 é porque ninguém a quer.
“A mulher é respeitada!” e dá mais audiência aos clips da Britney Spears do que à entrevista da deputada.
“Viva ao dia da mulher!” mas larga a esposa em casa e sua diversão é ver a próxima playboy numa banca qualquer.
“Viva ao dia da mulher!”, “Viva ao dia da mulher!”
(Conclusão da aspirante à jornalista após cobrir mais de cinco eventos em comemoração ao Dia Internacional da Mulher)

segunda-feira, 3 de março de 2008

Complexo de Pagú



Daqui alguns dias é 08 de março, dia Internacional da Mulher. Uma data em que no mundo inteiro nós, mulheres, somos lembradas, homenageadas e ‘bem ditas’. Nessas 24 horas são deixadas de lado todas as controvérsias do sexo frágil, todas aquelas insinuações de que a força masculina ainda prevalece sobre a capacidade intelectual da mulher e, no decorrer do dia, somos bombardeadas com felicitações, palavras dóceis, frases de efeito e poemas de lirismo quase surreal.

Há o que comemorar? Sim, houve uma evolução significativa no papel da mulher na sociedade. Mas ainda assim, além das dificuldades (resultantes de uma acumulação de funções: profissional, mãe, esposa, amiga, etc) e barreiras morais, existe uma acomodação de uma parcela feminina que não faz uso de senso crítico próprio, que não questiona a associação de mulher com objeto e, pior, não percebe que sua história tem mais valor que a de que qualquer novela da Globo.

É lamentável que essa evolução da mulher não tenha ocorrido, também, na mentalidade daquelas que ainda se vêem aprisionadas a uma limitação de ações e idéias, apenas por serem mulheres. Apenas por serem mulheres? É justamente isso que deveria estimulá-las a lutar e persistir, afinal, somos nós quem sofremos a dor do parto e nem por isso deixamos de procriar. Os homens seriam os responsáveis por uma diminuição catastrófica da taxa de natalidade no mundo caso essa tarefa fosse atribuída a eles. Contudo, é irônico observar, por exemplo, a pequena participação feminina no cenário político, esportivo e em tantas outras áreas que ainda são prioritariamente para homens.

A vida de uma mulher é preciosa demais para ser reduzida a um dia e complexa o suficiente para ser estrela apenas em comerciais de cerveja. Infinitamente forte para se deixar levar por conversinhas fúteis e palavras autoritárias e, portanto, mais importante que a vida dos BBB´s. Merecemos ou não nos valorizarmos mais? A garra daquelas corajosas mulheres de 1857, mortas por reivindicarem seus direitos trabalhistas, serviu de inspiração para o “Dia da Mulher”, mas, infelizmente, essa força feminina parece estar em extinção.





Pagú

Rita Lee / Zélia Duncan



Mexo, remexo na inquisição.
Só quem já morreu na fogueira,
sabe o que é ser carvão.
Eu sou pau pra toda obra,
Deus dá asas à minha cobra.
Minha força não é bruta,
não sou freira nem sou puta.

Nem toda feiticeira é corcunda,
nem toda brasileira é bunda.
Meu peito não é de silicone,
sou mais macho que muito homem.

Sou rainha do meu tanque,
sou pagu indignada no palanque.
Fama de porra-louca, tudo bem,
minha mãe é Maria ninguém.
Não sou atriz, modelo, dançarina.
Meu buraco é mais em cima.